segunda-feira, 23 de julho de 2012

Dia 5 (em Santiago)

Dormi muito tempo, e muito bem*.
Tenho uma vaga ideia de ter ouvido uma ligeira movimentação no quarto - provavelmente quando o J e o D se foram embora de manhã cedo, mas não cheguei a acordar.
Pela primeira vez nestes dias, tinha colocado o despertador para as 10h - um luxo!
No entanto, às 9h00 já estava a acordar, e reparei que o Pina também. Ele preparava-se para sair e ir apanhar o autocarro de volta a Lisboa.
Convidou-me para ir com ele tomar o pequeno almoço, e acedi.
Despedimo-nos junto à pastelaria e eu resolvi voltar ao quarto para arrumar as coisas que tinha deixado espalhadas - e dizer na receção que ia ficar pelo menos mais um dia. Indicaram-me que, como ficaria sozinha, poderia então ocupar uma cama num dos quartos do 1º andar, apenas com raparigas. yupiiiiii!
Apesar das dores (que mesmo sem mochila permaneciam muito intensas), sentia-me descansada. Sentia-me livre. Mentalmente, comecei a fazer uma lista do que queria fazer naquele dia e nos sítios que queria visitar.
Queria ir à Missa do Peregrino. Queria sentar-me na Catedral (seguindo um desejo meu, e um "conselho" do HD). Queria passear por Santiago e fundir-me naquele local histórico e repleto de carga emocional.

Enquanto arrumava tudo, bateram à porta.
Era o Pina, que não tinha conseguido lugar no autocarro.
Pediu-me para ver na internet os horários dos comboios, mas a wifi do hostal estava em baixo. As informações que eles tinham na receção também não incluíam Portugal como destino... Perguntou-me se não queria ir com ele até à estação de comboios.
De facto não me apetecia muito, mas como no dia 7 havia greve em Portugal, também eu precisava de saber informações de lá. Por outro lado, sentia-me em dívida para com ele e para com os outros 2 companheiros de jornada. Fomos.
Nada a fazer.
Dia 7 estava mesmo tudo parado a partir de Vigo (a partir de onde o trajeto é assegurado pela CP), e portanto não se conseguiria ir de comboio para lado nenhum no nosso país. Fiquei aborrecida. Desde que tinha planeado esta viagem, tinha decidido fazer o regresso de comboio. Além do conforto, havia a paisagem, o preço, e tudo isso.
Como se costuma dizer, o que não tem remédio, remediado está.
Ele conformou-se que só se iria embora no dia seguinte, eu conformei-me que teria mesmo de ir de autocarro.
Fomos comprar os bilhetes.

Com todas estas deslocações (o hostal ficava na parte de cima do centro histórico, a estação de caminho de ferro na outra ponta, à direita, a estação de autocarros para o lado oposto), andámos mais uns km - sempre a subir e a descer. Eu, aflita com dores, começava a ter a noção que aquelas dores seriam algo mais complicado que simples cansaço. Mas já que ali estava...
Nisto, perdemos quase um dia inteiro.
Conversámos. Creio que havia um sentimento de parte a parte de responsabilidade de companheirismo. Tínhamos no entanto objetivos diferentes quanto às motivações de ali estarmos, e como amigo não empata amigo, concordámos ir cada um às suas.
No entanto ainda visitámos juntos o museu da Catedral, e o Pina resolveu vir comigo à Missa**.
Quando íamos a caminho do centro, encontrámos o Mauro. Foi uma alegria imensa (e também uma surpresa) vê-lo! Perguntei-lhe por Finisterra, e ele disse que tinha resolvido não ir porque estava muito cansado. Ainda tinha considerado ir de autocarro visitar o local, mas desistiu ao ver que este demorava 3h para cada lado. Por isso, ficou por ali a curtir Santiago. Deixei-o, pois estávamos em cima da hora para a Missa.

Concluí que a Eucaristia das 19h não era "igual" à das 12h... e fiquei triste por não ter participado na dessa manhã. Quando terminou, despedi-me do Pina. Ele iria regressar ao hostal e eu ficava por ali. Combinámos na manhã seguinte sairmos juntos para o autocarro.

Regressei ao interior da Catedral, que começava a esvaziar.
Sentei-me num banco isolado. Absorvi o ambiente. Conversei comigo, conversei com Deus. Desabafei e limpei a alma. Renovei a alma.
Peguei no meu Diário, reli tudo o que tinha escrito. Escrevi mais. Sobre estes dias, sobre o que me tinha levado ali, sobre o futuro.
Sim, HD, como disseste "revi e senti" o que o Caminho me ajudou a descobrir!
E foi tanto...
Ao fim dos 4 dias de Caminho, os pensamentos, as ideias, as peças soltas que tinha encontrado ou conseguido, os pensamentos isolados que por vezes me tinham assolado e que na altura me pareciam sem nexo, começavam a fazer o seu sentido. Ali sentada comecei a ver o panorama global do que tinha procurado ao longo do Caminho. O rumo estava agora a tomar traços cada vez mais nítidos na minha mente, e tudo se conjugava, lentamente, de uma forma absurda e subitamente lógica.
Em alguns aspetos, de uma forma que me surpreendeu verdadeiramente.
Mesmo nas alturas em que nenhum pensamento fluia, estava serena e em paz.
Às 21h fui "corrida" dali pelo guarda, que queria fechar a Catedral.

Não estava pronta para sair dali, para regressar ao mundo, mas tive obviamente de obedecer.
Fui sentar-me na Praça, onde outros Peregrinos se juntavam. Escolhi um lugar na outra ponta, mesmo de frente para a porta principal da Catedral, sentei-me no chão e ali fiquei.


Sentia-me tão em casa e tão em paz!
Apesar de terem decorrido umas escassas 4 ou 5 horas desde que tinha terminado a Eucaristia, e que eu me tinha recolhido para pensar, escrever, sentir, a mim parecia-me que aquele tempo tinha durado tanto ou mais que os dias de caminhada. Sentia que estava ali sentada há dias, meses, anos até.

Sentada no chão da praça da Catedral, observava a movimentação de pessoas que por ali passavam. Uns tiravam fotografias, outros observavam os edifícios. Grupos ou pessoas isoladas. De novo verifiquei que os Peregrinos se distinguiam perfeitamente dos "outros".
Ri-me comigo própria. Gargalhei mesmo.
Também eu já tinha ali estado várias vezes. Como turista, como voluntária num Xacobeo, em passeio durante a lua-de-mel. De todas as visitas que fiz a Santiago, em nenhuma me senti tão parte integrante daquela cidade. Sim, naquele dia (ou desde aquele dia) eu não era uma simples visita. Agora eu estou em Santiago para sempre, e Santiago faz parte de mim.

Saí porque começou a chover mesmo muito.
Ainda dei umas voltas pelas ruas da zona histórica da cidade. Ou melhor, ainda me arrastei vagarosamente durante algum tempo pelas ruas de Santiago, mas chovia de tal maneira que tornava impossível usufruir do que quer que fosse. De qualquer forma, era já tarde (umas 23h30) e ainda nem tinha jantado.
Pelo caminho de regresso ao hostal tentei comprar alguma coisa para comer, mas estava tudo fechado. Quando lá cheguei, no entanto, outros hóspedes estavam a começar a jantar, e convidaram-me a juntar-me a eles. Foi um fim de noite animado.






*Apesar de pouco me conseguir mexer (virar) na cama, tal eram as dores nos joelhos
** Nunca tinha participado numa Eucaristia e queria ver como era...

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Dia 4 (Valga-Santiago), parte II

Enquanto ali estivemos sentados, passaram por nós bastantes peregrinos de bicicleta, muitos deles portugueses. 
Eu começava a sentir cada vez mais próximo o fim da caminhada.
Sentia-me esperançada, feliz, ansiosa.
Retomámos.
Creio que eram "apenas" 5km até Santiago. Restava a dúvida se a contagem era até à entrada (como os outros marcos do Caminho, que contabilizavam apenas até à entrada e depois a partir da saída de cada localidade), ou se era até à catedral.
O Jorge falava também muito numa derradeira subida junto ao hospital, que segundo ele era mesmo muito comprida, além de inclinada. Não se calava com isto... :)
Descida para Santiago

Este percurso foi muito diverso, e sempre debaixo de chuva.
Entrámos num bosque, percorremos terra batida durante algum tempo, atravessámos uma ponte e um local com algumas casas.
Por esta altura o ritmo de caminhada era inferior a 2km/h, segundo os dados do GPS.
Até que eles se ofereceram para me levar a mochila...
Necessitei de uma força sobre-humana para não chorar naquele momento, e só Deus sabe o quanto me custou recusar esta oferta de uma forma gentil, mas firme. Uma oferta muito generosa e que se me afigurava como um copo de água no meio do deserto, mas que eu não me podia permitir aceitar. 
Não tão perto do fim, do meu objetivo.
Se por um lado eles próprios estavam já muito cansados (principalmente o J e o P), por outro eu não queria de forma alguma terminar o meu Caminho daquela forma. 
Não!
Tinha chegado ali sozinha. A mochila fazia parte de mim já. Tudo o que eu necessitei durante aqueles quatro dias trazia-o às costas, e assim o levaria até à Catedral.

Esta foi, dos meus quatro dias de Caminho, a mais dura etapa.
Se até aqui eu tinha alinhado nas brincadeiras deles, procurando responder com entusiasmo à forma alegre e amiga com que me apoiavam, nesta fase recolhi-me. Não teria conseguido chegar ao fim se não me concentrasse em mim, se não me abstraísse dos km que me faltavam, da dor.
Olhava o chão, de novo um pé à frente do outro, e outro, e outro, o som dos bastões a bater na terra, controlar a respiração e muito cuidado com a colocação dos pés - a mínima pedrinha provocava-me dores que julgava não serem possível existir a "andar". Por várias vezes me senti a cair, e valeram-me os bastões para não ir ao chão.
Olhar em frente desconcentrava-me, porque me mostrava o que ainda havia a percorrer, e por isso baixava a cabeça, embrenhava-me nos meus pensamentos para esquecer a dor, e empurrava caminho.

A dada altura, ainda pelo bosque mas em estrada de alcatrão, o Duarte sugeriu que caminhasse em "marcha atrás". Basicamente, podia ter-se lembrado disso mais cedo! Fiz um bom bocado assim. Era uma solução maravilhosa, porque não me doía nada aquele movimento e conseguia andar bastante mais depressa.

A dada altura, damos connosco praticamente na entrada de Santiago.
No entanto, estávamos perante uma encruzilhada. Para a esquerda, um caminho urbano que o Jorge identificou como sendo o que tinha feito uns anos antes e que passava na dita subida "dramática" junto ao hospital. Para a direita, um caminho pelo campo. Optámos por este último.
Não sei dizer se fizemos a escolha certa ou não.
Sei que demos connosco um bocado* mais adiante em ruas movimentadas, subir e descer passeios, atravessar estradas e subir lancis. Estávamos algures em Santiago já, mas da Catedral ou da zona histórica, nem vê-las.

Ao contrário de todo o resto, este percurso até chegarmos à Catedral foi complicado de realizar porque os nativos dificultaram bastante. Perdemo-nos, garantidamente, talvez tenha sido por isso.
Eu já não olhava para lado nenhum, limitava-me a segui-los.
As ruas estavam cheias de gente (espanhois), muito transito e uma confusão brutal.
Demorámos imenso tempo, e seguramente andámos às voltas...

Até que entramos na zona histórica.
E aqui só me apetecia correr!!!
Quando estávamos já muito próximos do centro, oiço uma voz a chamar-me. Uma, duas, três vezes. Até que percebi que era mesmo comigo, e procuro ver de onde vinha o som. Era o Mauro, que se encontrava numa esplanada rodeado de gente. Acenei-lhe, contente por o ver, gritei-lhe que estava a chegar e precisava de continuar.
Antes de irmos à Catedral, parámos na Oficina do Peregrino (que por acaso ficava na rua por onde entrámos) para irmos buscar as nossas Compostelanas**. Doeu-me ver que tinha... mais escadas para subir e descer. E confesso que me fez muita confusão ver que a Oficina estava repleta de turigrinos que tinham feito o Caminho de carro. Mas adiante.
...

Finalmente, cheguei à Catedral de Santiago de Compostela!
Eram 17h57 quando lá entrei. Tinha feito um percurso de 37km nesse dia, durante 12 horas***. 

(a primeiríssima coisa que fiz foi tirar esta foto - eles lá à frente)

Entrar na Catedral de Santiago de Compostela teve um efeito absolutamente indescritível.
Já tinha ali estado diversas vezes, mas sempre de "visita". Chegar ali, 4 dias e mais de 100km depois era... indescritível e absolutamente incompreensível para quem nunca fez o Camiño****.

Aproximei-me de um banco livre, tirei a mochila das costas, sentei-me, relaxei. Relaxei pela primeira vez neste dia. Nestes dias.
Por momentos esqueci todas as dores, o cansaço, as dificuldades.
Eu tinha conseguido.
Fiquei ali, sentada, imóvel. Chorei, rezei, pensei, acalmei-me e realizei o que tinha acabado de fazer. Acho que cheguei a cantar. 
Sentia-me calma e em casa. Sentia-me eufórica. Sentia-me plena. Queria chorar e rir ao mesmo tempo. Acho que ri e chorei mesmo, em simultâneo.
Por momentos fechei os olhos e questionei se aquilo tinha mesmo acontecido, se aqueles dias tinham sido verdade, se aquele momento era verdade ou fruto de um sonho. Respirei fundo, muito fundo. Tentava absorver a atmosfera que me rodeava. Tentava dizer ao meu coração descompassado que sim, estava ali, na minha casa, no meu objetivo, no meu ser.
Sim, era um sonho mesmo, mas um sonho tornado realidade...
Não sei quanto tempo ali estive, mas calculo que bastante, porque quando saí (e consegui descer as escadas da Catedral) eles estavam com um ar meio desesperado à minha espera.
Tirámos a foto da praxe.



Questionámo-nos sobre onde iríamos ficar.
O local que o HD me tinha indicado tinha apenas 1 quarto livre, pelo que o "desocupei". O Jorge tinha uma referência de um hostal, que era o mesmo que me tinha sido indicado pelo M. Resolvemos que iríamos tentar esse, mas... demo-nos ao luxo de ir até lá de taxi. 
Foi magnífico ver 4 peregrinos a entrar num taxi! E mais magnífico ainda foi sentar-me lá...
A viagem não durou nem 5 minutos, mas soube-me pela vida!

Tudo estaria bem encaminhado se... não nos tivessem atribuído um quarto no 2º andar. Bem reclamei, mas de nada me adiantou e lá tive de subir aquilo tudo - se bem que o rapaz da receção me levou a mochila para cima.
O hostal era engraçado, calmito, e o pessoal que por lá andava era simpático.
Tomámos banho, descansámos, fomos passear à net (tinha wifi), e saímos para jantar. Tínhamos combinado ir comer um chuleton de ternero (ideia do Jorge), para celebrar a chegada a Santiago, e lá fomos nós*****.
No dia seguinte, o Jorge e o Duarte iriam seguir até Finisterra, pelo que foi uma noite de festa e de despedida também. Regada com um bom vinho, e um curto passeio pela cidade.

Faltam os pés do Pina, que andava sei lá por onde. Eu sou a que estou de botas e calças

Deitada no chão, junto à vieira de Santiago, a observar a Catedral. 
O Jorge teimava que todos tínhamos de fazer aquilo e ver a Catedral daquele ângulo...

Regressámos cedo ao hostal (creio que pouco passava das 21h), pois estávamos todos muito cansados e cheios de sono. Tinha sido um dia muito duro para todos.
Despedi-me deles nessa noite, pois o Pina iria regressar a Lisboa, e os outros dois iriam seguir para Finisterra.
Dormi que nem uma pedra.







*algures neste dia tinha perdiso a noção de tempo e de espaço
** "certificado" emitido pelos serviços da Catedral, passado mediante a apresentação da Credencial devidamente carimbada
***dados do GPS deles. Os km a mais deverem-se às voltas que demos em Santiago
**** contra mim falo, que só agora o fiz
*****a refeição mais cara destes dias todos, mas valeu a pena

terça-feira, 17 de julho de 2012

Dia 4 (Valga-Santiago), parte I

Este é o dia que mais me custa descrever em palavras (e que nem escrevi no meu Diário).
Apesar de ter, e muito bem, optado por o fazer na companhia dos portugueses que me tinham convidado, foi de todos o dia mais difícil a nível físico, espiritual e emocional. Curiosamente, e "apesar" de ir acompanhada por quatro companheiros de viagem, foi aquele onde consegui uma maior interioridade pessoal. (já explico)
Foi também, talvez, o mais divertido.
(grande baralhação que aqui vai... foi um dia de sentimentos contraditórios, pronto)
Por todos estes motivos, vai ser escrito em duas partes. pelo menos


Confesso que quando comecei a caminhar, num trajeto lindo mas a descer, e vi o primeiro marco - que assinalava 32km, pensei que iria deixá-los em Teo, como inicialmente tinha previsto. 
Não foi um dia fácil.

Tínhamos 32km pela frente, queríamos chegar "cedo" a Santiago, e eu estava com fortes limitações para a saída de Valga e para a chegada a Santiago (que pelos mapas iriam ser descidas acentuadas).
Desta forma, tínhamos combinado acordar às 5h, tomar o pequeno almoço no café onde no dia anterior tínhamos comprado as coisas para o jantar. 
Assim fizemos.

Connosco partiu o Luís.
Eu tinha-me cruzado com o Luís no dia anterior, quando este caminhava com outro senhor espanhol, mais velho. Pensei que eles iam juntos, mas não.
Na altura, o tal senhor tinha caminhado comigo durante uma meia hora, e nesse tempo foi-me falando do seu companheiro. Parece que gostava de fazer o Caminho a correr (???!?), mas parava muitas vezes, em locais de especial beleza, para admirar o verde e a natureza. Chegava a ficar ali parado em contemplação durante mais de meia hora... Por outro lado, de cada vez que via árvores grandes (e portanto antigas), parava também e abraçava-as durante um bom pedaço de tempo. Na altura, não liguei muito ao que este peregrino me disse. (já tinha visto tanta coisa estranha...) Mas neste dia percebi e pude constatar o que ele me tinha dito.
Não sei bem como descrever o Luís.
Ele era um desportista (o corpo visivelmente bem moldado por muitas horas de ginásio - e corrida, segundo ele próprio), tatuagens de cariz religioso nos braços, e tinha umas teorias... interessantes acerca de alimentação e forma de andar. 
Se por um lado não comia porco, não bebia álcool e não tomava pequeno almoço porque "comer logo de manhã dá cansaço e faz mal ao organismo", enquanto ainda no albergue arranjávamos as coisas para sairmos, ele tomou uns comprimidos de coisas que o "ajudavam a ter energia".
Não disse o que eram...
Saiu connosco do albergue e esteve a olhar para nós enquanto comíamos, tecendo considerações sobre alimentação.

...

A saída de Valga é magnífica, e fazê-lo ao amanhecer tornou o percurso ainda mais belo.
Íamos animados (com aquele grupo era impossível não estar), e em busca do "marco" do D. - Ele queria tirar uma foto junto ao marco com tantos km como a sua idade, e sendo o mais novo do grupo, isso estava guardado para este último dia.

Eu e 3 dos meus companheiros deste último dia - o Luis, o Pina, e o Duarte (o Jorge tirou a foto)

Enquanto as minhas articulações não aqueceram, foi doloroso. Optei por fixar o meu pensamento em coisas diferentes, "fora dali". 

(Os acontecimentos deste dia estão um pouco confusos em termos de organização espacio-temporal, por isso não se admire quem me lê se eu "saltitar" nas horas)

Como não me canso de afirmar, estes três companheiros foram fantásticos. O ritmo deles era bem mais acelerado que o meu (cada vez mais lento), mas de uma forma que não percebi bem se tinha sido combinada entre eles ou não, havia sempre um que caminhava mais perto de mim - ali pertinho (poucos metros de distância, às vezes lado a lado), que me ia perguntando como estava, que simplesmente olhava para trás para ver se eu estava bem e/ou a andar. Pareciam saber sempre o momento exato para uma palavra de alento, para uma piada de descompressão, para um silêncio cúmplice.

Ao passar Padrón, o Pina quis ir comprar cerejas, e o Luís quis ir comprar pão para dar aos patos que estavam no rio e comer ao pequeno almoço*. 
Parámos no jardim junto ao rio e esperámos.
Voltou o Pina, comemos as cerejas. Brincámos com os patos. Dissemos piadas. Esperámos.
Do Luís, nada.
Devemos ter estado ali mais de meia hora. Até que um foi à procura dele. Tinha comprado o pão e estava numa esplanada a conversar com outros peregrinos que estavam a sair do albergue de Padrón. E nem o escondeu...
Isto pode parecer estranho, mas vindo da simplicidade e sinceridade que o caracterizava, só nos deu para rir. 

Seguimos.
Pouco depois, o Luís informou-nos que iria ficar numa zona verde, a comer e a contemplar a paisagem. Precisava, segundo ele, de alimentar o corpo com o pão que tinha comprado em Padrón, e alimentar o espírito com um abraço prolongado a uma árvore (segundo ele) milenar que tinha descoberto. Disse-nos que iria ficar por ali cerca de meia hora ou mais, mas que depois disso iria a correr ter connosco.
Deixámo-lo sorridente, concentrado e abraçado à árvore, e seguimos o nosso caminho.
Nunca mais o vimos.

Esta primeira parte do percurso era linda, ainda com muito campo, atravessando ocasionalmente pequenas povoações.

O grupo tinha por hábito fazer a meio do percurso do dia uma paragem de 30-40 minutos para descansar, comer qualquer coisa e trocar de meias. Calhou que neste quarto dia de jornada essa metade do caminho fosse numa terra muito movimentada. Escolhemos o adro de uma igreja, junto ao pelourinho. Mas pouco depois de termos tirado as mochilas das costas, começou a chover bastante, e tivemos de nos mudar para uma fonte que havia junto à estrada. Ali descansámos, comemos qualquer coisa** e reabastecemos os cantis com água fresca.
Fizemo-nos de novo ao caminho, debaixo de chuva, mas parámos poucos km à frente. Eles ainda me perguntaram se eu queria continuar (já que eu própria tinha passado os 3 dias antes a dizer que preferia andar devagar do que fazer paragens e retomar), ou almoçar com eles. Fiquei, e soube bem aquela paragem, o hamburguer, o convívio com os turigrinos americanos que encontrámos ali.

Ao passar Teo, olhei o marco que apontava 13km.
Doía-me tudo. Estar de pé, com as pernas esticadas, doía. Dobrar as pernas doía. A solução nas paragens era adotar uma posição vertical, com ligeira flexão dos joelhos.
Considerei que ficar ali sozinha e no dia seguinte enfrentar aqueles km todos sem companhia ia ser penoso. Nem lhes referi estes meus pensamentos. Meti pelo caminho de terra batida que entrava num bosque e segui viagem.

A partir daqui começámos a ver muita malta desta.
Era observar os autocarros a parar, e eles - os turigrinos, a saírem de lá frescos que nem alfaces, de mochilas levezinhas às costas e a fazerem-se à estrada. Obviamente nada tinha a ver com isto, mas confesso que no meio do meu cansaço e das minhas dores todas, aquilo me fez muita confusão.

Senti pela primeira vez que estava a atingir o meu limite numa subida junto a uma estrada movimentada, que eu na altura julgava ser já próxima de Santiago.
Se calhar até era, mas o facto é que por esta altura já tinha deixado de ter noção de tempo e de distância. E nem queria olhar para os marcos. Obrigava simplesmente o meu corpo a ignorar a dor e a obedecer à minha mente: um pé à frente do outro, e outro, e outro, e outro.
Chovia, a subida era mesmo grande e comprida, inclinada e numa estrada cheia de carros.
Apenas eu, a olhar para o chão (não queria ver o fim interminável daquilo), e os gritos de incentivo dos meus novos amigos. Chamavam por mim, batiam palmas, brincavam...
Ao chegar ao topo, pensei que estava já próximo de Santiago. Enganei-me redondamente.
Pelos dados do gps, faltariam ainda 2 míseros km antes da derradeira descida para o nosso destino final. Mas ao menos esses eram a direito.

Atravessámos a localidade, e considerámos parar para uma cerveja, antes da descida. Estava tudo fechado, e por isso aproximámo-nos do bosque verdejante que nos separava de Santiago de Compostela.
Eu, que até aí tinha sempre preferido seguir caminho em vez de parar, implorei por um breve descanso. Encontrámos um recanto junto a uma casa e descansámos, comendo os últimos amendoins que eu ainda tinha comigo.
Estávamos a uns escassos 200m do início da descida...

(continua)






*eram umas 8h30/9h - mais de 3 horas depois de termos começado a andar portanto, mas ele ainda não tinha comido nada a não ser os comprimidos que tomou logo assim que acordou
 ** pouca coisa mesmo, porque não tínhamos podido comprar comida em Valga