Tenho uma vaga ideia de ter ouvido uma ligeira movimentação no quarto - provavelmente quando o J e o D se foram embora de manhã cedo, mas não cheguei a acordar.
Pela primeira vez nestes dias, tinha colocado o despertador para as 10h - um luxo!
No entanto, às 9h00 já estava a acordar, e reparei que o Pina também. Ele preparava-se para sair e ir apanhar o autocarro de volta a Lisboa.
Convidou-me para ir com ele tomar o pequeno almoço, e acedi.
Despedimo-nos junto à pastelaria e eu resolvi voltar ao quarto para arrumar as coisas que tinha deixado espalhadas - e dizer na receção que ia ficar pelo menos mais um dia. Indicaram-me que, como ficaria sozinha, poderia então ocupar uma cama num dos quartos do 1º andar, apenas com raparigas. yupiiiiii!
Apesar das dores (que mesmo sem mochila permaneciam muito intensas), sentia-me descansada. Sentia-me livre. Mentalmente, comecei a fazer uma lista do que queria fazer naquele dia e nos sítios que queria visitar.
Queria ir à Missa do Peregrino. Queria sentar-me na Catedral (seguindo um desejo meu, e um "conselho" do HD). Queria passear por Santiago e fundir-me naquele local histórico e repleto de carga emocional.
Enquanto arrumava tudo, bateram à porta.
Era o Pina, que não tinha conseguido lugar no autocarro.
Pediu-me para ver na internet os horários dos comboios, mas a wifi do hostal estava em baixo. As informações que eles tinham na receção também não incluíam Portugal como destino... Perguntou-me se não queria ir com ele até à estação de comboios.
De facto não me apetecia muito, mas como no dia 7 havia greve em Portugal, também eu precisava de saber informações de lá. Por outro lado, sentia-me em dívida para com ele e para com os outros 2 companheiros de jornada. Fomos.
Nada a fazer.
Dia 7 estava mesmo tudo parado a partir de Vigo (a partir de onde o trajeto é assegurado pela CP), e portanto não se conseguiria ir de comboio para lado nenhum no nosso país. Fiquei aborrecida. Desde que tinha planeado esta viagem, tinha decidido fazer o regresso de comboio. Além do conforto, havia a paisagem, o preço, e tudo isso.
Dia 7 estava mesmo tudo parado a partir de Vigo (a partir de onde o trajeto é assegurado pela CP), e portanto não se conseguiria ir de comboio para lado nenhum no nosso país. Fiquei aborrecida. Desde que tinha planeado esta viagem, tinha decidido fazer o regresso de comboio. Além do conforto, havia a paisagem, o preço, e tudo isso.
Como se costuma dizer, o que não tem remédio, remediado está.
Ele conformou-se que só se iria embora no dia seguinte, eu conformei-me que teria mesmo de ir de autocarro.
Fomos comprar os bilhetes.
Com todas estas deslocações (o hostal ficava na parte de cima do centro histórico, a estação de caminho de ferro na outra ponta, à direita, a estação de autocarros para o lado oposto), andámos mais uns km - sempre a subir e a descer. Eu, aflita com dores, começava a ter a noção que aquelas dores seriam algo mais complicado que simples cansaço. Mas já que ali estava...
Nisto, perdemos quase um dia inteiro.
Conversámos. Creio que havia um sentimento de parte a parte de responsabilidade de companheirismo. Tínhamos no entanto objetivos diferentes quanto às motivações de ali estarmos, e como amigo não empata amigo, concordámos ir cada um às suas.
No entanto ainda visitámos juntos o museu da Catedral, e o Pina resolveu vir comigo à Missa**.
Quando íamos a caminho do centro, encontrámos o Mauro. Foi uma alegria imensa (e também uma surpresa) vê-lo! Perguntei-lhe por Finisterra, e ele disse que tinha resolvido não ir porque estava muito cansado. Ainda tinha considerado ir de autocarro visitar o local, mas desistiu ao ver que este demorava 3h para cada lado. Por isso, ficou por ali a curtir Santiago. Deixei-o, pois estávamos em cima da hora para a Missa.
Concluí que a Eucaristia das 19h não era "igual" à das 12h... e fiquei triste por não ter participado na dessa manhã. Quando terminou, despedi-me do Pina. Ele iria regressar ao hostal e eu ficava por ali. Combinámos na manhã seguinte sairmos juntos para o autocarro.
Regressei ao interior da Catedral, que começava a esvaziar.
Sentei-me num banco isolado. Absorvi o ambiente. Conversei comigo, conversei com Deus. Desabafei e limpei a alma. Renovei a alma.
Peguei no meu Diário, reli tudo o que tinha escrito. Escrevi mais. Sobre estes dias, sobre o que me tinha levado ali, sobre o futuro.
Sim, HD, como disseste "revi e senti" o que o Caminho me ajudou a descobrir!
E foi tanto...
Ao fim dos 4 dias de Caminho, os pensamentos, as ideias, as peças soltas que tinha encontrado ou conseguido, os pensamentos isolados que por vezes me tinham assolado e que na altura me pareciam sem nexo, começavam a fazer o seu sentido. Ali sentada comecei a ver o panorama global do que tinha procurado ao longo do Caminho. O rumo estava agora a tomar traços cada vez mais nítidos na minha mente, e tudo se conjugava, lentamente, de uma forma absurda e subitamente lógica.
Em alguns aspetos, de uma forma que me surpreendeu verdadeiramente.
Mesmo nas alturas em que nenhum pensamento fluia, estava serena e em paz.
Às 21h fui "corrida" dali pelo guarda, que queria fechar a Catedral.
Não estava pronta para sair dali, para regressar ao mundo, mas tive obviamente de obedecer.
Fui sentar-me na Praça, onde outros Peregrinos se juntavam. Escolhi um lugar na outra ponta, mesmo de frente para a porta principal da Catedral, sentei-me no chão e ali fiquei.
Sentia-me tão em casa e tão em paz!
Apesar de terem decorrido umas escassas 4 ou 5 horas desde que tinha terminado a Eucaristia, e que eu me tinha recolhido para pensar, escrever, sentir, a mim parecia-me que aquele tempo tinha durado tanto ou mais que os dias de caminhada. Sentia que estava ali sentada há dias, meses, anos até.
Sentada no chão da praça da Catedral, observava a movimentação de pessoas que por ali passavam. Uns tiravam fotografias, outros observavam os edifícios. Grupos ou pessoas isoladas. De novo verifiquei que os Peregrinos se distinguiam perfeitamente dos "outros".
Ri-me comigo própria. Gargalhei mesmo.
Também eu já tinha ali estado várias vezes. Como turista, como voluntária num Xacobeo, em passeio durante a lua-de-mel. De todas as visitas que fiz a Santiago, em nenhuma me senti tão parte integrante daquela cidade. Sim, naquele dia (ou desde aquele dia) eu não era uma simples visita. Agora eu estou em Santiago para sempre, e Santiago faz parte de mim.
Saí porque começou a chover mesmo muito.
Ainda dei umas voltas pelas ruas da zona histórica da cidade. Ou melhor, ainda me arrastei vagarosamente durante algum tempo pelas ruas de Santiago, mas chovia de tal maneira que tornava impossível usufruir do que quer que fosse. De qualquer forma, era já tarde (umas 23h30) e ainda nem tinha jantado.
Pelo caminho de regresso ao hostal tentei comprar alguma coisa para comer, mas estava tudo fechado. Quando lá cheguei, no entanto, outros hóspedes estavam a começar a jantar, e convidaram-me a juntar-me a eles. Foi um fim de noite animado.
Quando íamos a caminho do centro, encontrámos o Mauro. Foi uma alegria imensa (e também uma surpresa) vê-lo! Perguntei-lhe por Finisterra, e ele disse que tinha resolvido não ir porque estava muito cansado. Ainda tinha considerado ir de autocarro visitar o local, mas desistiu ao ver que este demorava 3h para cada lado. Por isso, ficou por ali a curtir Santiago. Deixei-o, pois estávamos em cima da hora para a Missa.
Concluí que a Eucaristia das 19h não era "igual" à das 12h... e fiquei triste por não ter participado na dessa manhã. Quando terminou, despedi-me do Pina. Ele iria regressar ao hostal e eu ficava por ali. Combinámos na manhã seguinte sairmos juntos para o autocarro.
Regressei ao interior da Catedral, que começava a esvaziar.
Sentei-me num banco isolado. Absorvi o ambiente. Conversei comigo, conversei com Deus. Desabafei e limpei a alma. Renovei a alma.
Peguei no meu Diário, reli tudo o que tinha escrito. Escrevi mais. Sobre estes dias, sobre o que me tinha levado ali, sobre o futuro.
Sim, HD, como disseste "revi e senti" o que o Caminho me ajudou a descobrir!
E foi tanto...
Ao fim dos 4 dias de Caminho, os pensamentos, as ideias, as peças soltas que tinha encontrado ou conseguido, os pensamentos isolados que por vezes me tinham assolado e que na altura me pareciam sem nexo, começavam a fazer o seu sentido. Ali sentada comecei a ver o panorama global do que tinha procurado ao longo do Caminho. O rumo estava agora a tomar traços cada vez mais nítidos na minha mente, e tudo se conjugava, lentamente, de uma forma absurda e subitamente lógica.
Em alguns aspetos, de uma forma que me surpreendeu verdadeiramente.
Mesmo nas alturas em que nenhum pensamento fluia, estava serena e em paz.
Às 21h fui "corrida" dali pelo guarda, que queria fechar a Catedral.
Não estava pronta para sair dali, para regressar ao mundo, mas tive obviamente de obedecer.
Fui sentar-me na Praça, onde outros Peregrinos se juntavam. Escolhi um lugar na outra ponta, mesmo de frente para a porta principal da Catedral, sentei-me no chão e ali fiquei.
Sentia-me tão em casa e tão em paz!
Apesar de terem decorrido umas escassas 4 ou 5 horas desde que tinha terminado a Eucaristia, e que eu me tinha recolhido para pensar, escrever, sentir, a mim parecia-me que aquele tempo tinha durado tanto ou mais que os dias de caminhada. Sentia que estava ali sentada há dias, meses, anos até.
Sentada no chão da praça da Catedral, observava a movimentação de pessoas que por ali passavam. Uns tiravam fotografias, outros observavam os edifícios. Grupos ou pessoas isoladas. De novo verifiquei que os Peregrinos se distinguiam perfeitamente dos "outros".
Ri-me comigo própria. Gargalhei mesmo.
Também eu já tinha ali estado várias vezes. Como turista, como voluntária num Xacobeo, em passeio durante a lua-de-mel. De todas as visitas que fiz a Santiago, em nenhuma me senti tão parte integrante daquela cidade. Sim, naquele dia (ou desde aquele dia) eu não era uma simples visita. Agora eu estou em Santiago para sempre, e Santiago faz parte de mim.
Saí porque começou a chover mesmo muito.
Ainda dei umas voltas pelas ruas da zona histórica da cidade. Ou melhor, ainda me arrastei vagarosamente durante algum tempo pelas ruas de Santiago, mas chovia de tal maneira que tornava impossível usufruir do que quer que fosse. De qualquer forma, era já tarde (umas 23h30) e ainda nem tinha jantado.
Pelo caminho de regresso ao hostal tentei comprar alguma coisa para comer, mas estava tudo fechado. Quando lá cheguei, no entanto, outros hóspedes estavam a começar a jantar, e convidaram-me a juntar-me a eles. Foi um fim de noite animado.
*Apesar de pouco me conseguir mexer (virar) na cama, tal eram as dores nos joelhos
** Nunca tinha participado numa Eucaristia e queria ver como era...
** Nunca tinha participado numa Eucaristia e queria ver como era...





