Enquanto ali estivemos sentados, passaram por nós bastantes peregrinos de bicicleta, muitos deles portugueses.
Eu começava a sentir cada vez mais próximo o fim da caminhada.
Sentia-me esperançada, feliz, ansiosa.
Retomámos.
Creio que eram "apenas" 5km até Santiago. Restava a dúvida se a contagem era até à entrada (como os outros marcos do Caminho, que contabilizavam apenas até à entrada e depois a partir da saída de cada localidade), ou se era até à catedral.
O Jorge falava também muito numa derradeira subida junto ao hospital, que segundo ele era mesmo muito comprida, além de inclinada. Não se calava com isto... :)
Este percurso foi muito diverso, e sempre debaixo de chuva.
Entrámos num bosque, percorremos terra batida durante algum tempo, atravessámos uma ponte e um local com algumas casas.
Por esta altura o ritmo de caminhada era inferior a 2km/h, segundo os dados do GPS.
Até que eles se ofereceram para me levar a mochila...
Necessitei de uma força sobre-humana para não chorar naquele momento, e só Deus sabe o quanto me custou recusar esta oferta de uma forma gentil, mas firme. Uma oferta muito generosa e que se me afigurava como um copo de água no meio do deserto, mas que eu não me podia permitir aceitar.
Não tão perto do fim, do meu objetivo.
Se por um lado eles próprios estavam já muito cansados (principalmente o J e o P), por outro eu não queria de forma alguma terminar o meu Caminho daquela forma.
Não!
Tinha chegado ali sozinha. A mochila fazia parte de mim já. Tudo o que eu necessitei durante aqueles quatro dias trazia-o às costas, e assim o levaria até à Catedral.
Esta foi, dos meus quatro dias de Caminho, a mais dura etapa.
Se até aqui eu tinha alinhado nas
brincadeiras deles, procurando responder com entusiasmo à forma alegre e
amiga com que me apoiavam, nesta fase recolhi-me. Não teria conseguido
chegar ao fim se não me concentrasse em mim, se não me abstraísse dos km que me faltavam, da dor.
Olhava
o chão, de novo um pé à frente do outro, e outro, e outro, o som dos
bastões a bater na terra, controlar a respiração e muito cuidado com a
colocação dos pés - a mínima pedrinha provocava-me dores que julgava não
serem possível existir a "andar". Por várias vezes me senti a cair, e valeram-me os bastões para não ir ao chão.
Olhar em frente desconcentrava-me, porque me mostrava o que ainda havia a percorrer, e por isso baixava a cabeça, embrenhava-me nos meus pensamentos para esquecer a dor, e empurrava caminho.
A dada altura, ainda pelo bosque mas em estrada de alcatrão, o Duarte sugeriu que caminhasse em "marcha atrás". Basicamente, podia ter-se lembrado disso mais cedo! Fiz um bom bocado assim. Era uma solução maravilhosa, porque não me doía nada aquele movimento e conseguia andar bastante mais depressa.
A dada altura, damos connosco praticamente na entrada de Santiago.
No entanto, estávamos perante uma encruzilhada. Para a esquerda, um caminho urbano que o Jorge identificou como sendo o que tinha feito uns anos antes e que passava na dita subida "dramática" junto ao hospital. Para a direita, um caminho pelo campo. Optámos por este último.
Não sei dizer se fizemos a escolha certa ou não.
Sei que demos connosco um bocado* mais adiante em ruas movimentadas, subir e descer passeios, atravessar estradas e subir lancis. Estávamos algures em Santiago já, mas da Catedral ou da zona histórica, nem vê-las.
Ao contrário de todo o resto, este percurso até chegarmos à Catedral foi complicado de realizar porque os nativos dificultaram bastante. Perdemo-nos, garantidamente, talvez tenha sido por isso.
Eu já não olhava para lado nenhum, limitava-me a segui-los.
As ruas estavam cheias de gente (espanhois), muito transito e uma confusão brutal.
Demorámos imenso tempo, e seguramente andámos às voltas...
Até que entramos na zona histórica.
E aqui só me apetecia correr!!!
Quando estávamos já muito próximos do centro, oiço uma voz a chamar-me. Uma, duas, três vezes. Até que percebi que era mesmo comigo, e procuro ver de onde vinha o som. Era o Mauro, que se encontrava numa esplanada rodeado de gente. Acenei-lhe, contente por o ver, gritei-lhe que estava a chegar e precisava de continuar.
Antes de irmos à Catedral, parámos na Oficina do Peregrino (que por acaso ficava na rua por onde entrámos) para irmos buscar as nossas Compostelanas**. Doeu-me ver que tinha... mais escadas para subir e descer. E confesso que me fez muita confusão ver que a Oficina estava repleta de turigrinos que tinham feito o Caminho de carro. Mas adiante.
...
Finalmente, cheguei à Catedral de Santiago de Compostela!
Eram 17h57 quando lá entrei. Tinha feito um percurso de 37km nesse dia, durante 12 horas***.
(a primeiríssima coisa que fiz foi tirar esta foto - eles lá à frente)
Entrar na Catedral de Santiago de Compostela teve um efeito absolutamente indescritível.
Já tinha ali estado diversas vezes, mas sempre de "visita". Chegar ali, 4 dias e mais de 100km depois era... indescritível e absolutamente incompreensível para quem nunca fez o Camiño****.
Aproximei-me de um banco livre, tirei a mochila das costas, sentei-me, relaxei. Relaxei pela primeira vez neste dia. Nestes dias.
Por momentos esqueci todas as dores, o cansaço, as dificuldades.
Eu tinha conseguido.
Fiquei ali, sentada, imóvel. Chorei, rezei, pensei, acalmei-me e realizei o que tinha acabado de fazer. Acho que cheguei a cantar.
Sentia-me calma e em casa. Sentia-me eufórica. Sentia-me plena. Queria chorar e rir ao mesmo tempo. Acho que ri e chorei mesmo, em simultâneo.
Por momentos fechei os olhos e questionei se aquilo tinha mesmo acontecido, se aqueles dias tinham sido verdade, se aquele momento era verdade ou fruto de um sonho. Respirei fundo, muito fundo. Tentava absorver a atmosfera que me rodeava. Tentava dizer ao meu coração descompassado que sim, estava ali, na minha casa, no meu objetivo, no meu ser.
Sim, era um sonho mesmo, mas um sonho tornado realidade...
Não sei quanto tempo ali estive, mas calculo que bastante, porque quando saí (e consegui descer as escadas da Catedral) eles estavam com um ar meio desesperado à minha espera.
Tirámos a foto da praxe.
Questionámo-nos sobre onde iríamos ficar.
O local que o HD me tinha indicado tinha apenas 1 quarto livre, pelo que o "desocupei". O Jorge tinha uma referência de um hostal, que era o mesmo que me tinha sido indicado pelo M. Resolvemos que iríamos tentar esse, mas... demo-nos ao luxo de ir até lá de taxi.
Foi magnífico ver 4 peregrinos a entrar num taxi! E mais magnífico ainda foi sentar-me lá...
A viagem não durou nem 5 minutos, mas soube-me pela vida!
Tudo estaria bem encaminhado se... não nos tivessem atribuído um quarto no 2º andar. Bem reclamei, mas de nada me adiantou e lá tive de subir aquilo tudo - se bem que o rapaz da receção me levou a mochila para cima.
O hostal era engraçado, calmito, e o pessoal que por lá andava era simpático.
Tomámos banho, descansámos, fomos passear à net (tinha wifi), e saímos para jantar. Tínhamos combinado ir comer um chuleton de ternero (ideia do Jorge), para celebrar a chegada a Santiago, e lá fomos nós*****.
No dia seguinte, o Jorge e o Duarte iriam seguir até Finisterra, pelo que foi uma noite de festa e de despedida também. Regada com um bom vinho, e um curto passeio pela cidade.
Faltam os pés do Pina, que andava sei lá por onde. Eu sou a que estou de botas e calças
Deitada no chão, junto à vieira de Santiago, a observar a Catedral.
O Jorge teimava que todos tínhamos de fazer aquilo e ver a Catedral daquele ângulo...
Regressámos cedo ao hostal (creio que pouco passava das 21h), pois estávamos todos muito cansados e cheios de sono. Tinha sido um dia muito duro para todos.
Despedi-me deles nessa noite, pois o Pina iria regressar a Lisboa, e os outros dois iriam seguir para Finisterra.
Dormi que nem uma pedra.
*algures neste dia tinha perdiso a noção de tempo e de espaço
** "certificado" emitido pelos serviços da Catedral, passado mediante a apresentação da Credencial devidamente carimbada
***dados do GPS deles. Os km a mais deverem-se às voltas que demos em Santiago
**** contra mim falo, que só agora o fiz
*****a refeição mais cara destes dias todos, mas valeu a pena



Parabéns, Peregrina! :)
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