quinta-feira, 28 de junho de 2012

Dia 3 (Pontevedra-Valga)

Dormi muito bem, pela primeira vez no Caminho!

O Massimo acordou-me às 5h00 (estava eu ferradíssima), para partirmos juntos. Ao início pareceu-me boa ideia, mas vim a descobrir que estava errada.
Tratei dos joelhos com o gel que alivia as dores musculares, e saímos. Parámos para tomar o pequeno almoço* - uma vez que não tínhamos conseguido comprar nada, e este pequeno almoço demorou uma eternidade. Não que tivesse pressa, mas se me tinha levantado cedo, era porque queria começar a andar cedo, e não exatamente perder tempo na conversa.


Por incrível que pareça, só começámos a andar pelas 6h30... e porque a Eva, que pelos vistos pensava o mesmo que eu, se levantou e foi embora.
De qualquer forma, rapidamente o grupo começou a desfazer-se, graças aos diferentes ritmos de andamento das 8 pessoas que o compunham. A Laura tinha entretanto resolvido ficar e seguir, ainda que o fizesse mais devagar.

O início de dia correu bem. Depois de "aquecer", a dor nos joelhos acabava por passar (ou adormecer). O pior era mesmo parar, arrefecer e voltar a andar.
Resolvi que, para me "proteger", nesse dia não iria parar. Iria caminhar mais devagar, mas excetuando a obrigatória pausa para comprar e comer qualquer coisa, não iria fazer paragens
À saída de Pontevedra -com os alemães Ralf e Anja

Pouco depois desta foto, eles continuaram e eu fui ficando para trás. (não sei como, porque a Anja tinha as solas dos pés feitas numa bolha pegada...). Mais atrás ainda, seguiam o Rui, com a Eva e a Laura.
Sabia, pela análise do trajeto, que hoje me iria defrontar com mais subidas... e descidas. Procurei não pensar no assunto e concentrar-me na paisagem, nos meus objetivos desta aventura e no que me tinha levado ali.
A aproximadamente metade do trajeto entre Pontevedra e Caldas de Reis, o pessoal estava sentado num café a beber e a comer. Comentei que iria mesmo tentar chegar a Valga nesse dia. O Mauro perguntou-me se estava a falar a sério...
Observei a descida que me esperava e percebi que seria pior parar ali e depois enfrentar as dores. Continuei.

Apesar disso, andei relativamente bem durante este dia, que ficou quente e seco.
No entanto, e como tinha optado por não encher o cantil, para não carregar mais esses 2kg, e já perto da hora de almoço fiquei sem água. Tinha uma nova subida pela frente, não encontrava uma fonte e comecei a ficar preocupada.

A atravessar San Caetano. Laura e Rui em 1º plano, lá ao fundo eu e os alemães (foto da Eva)


Talvez porque estava a atravessar pequenas localidades de interior, e desta vez era 2ª feira (supostamente as pessoas estariam a trabalhar), nem sequer via nenhum habitante a quem pudesse pedir água. Confesso que cheguei a considerar entrar em algum quintal e procurar uma torneira, mas contive-me.

Até que passo por uma casa onde um senhor de idade lavava roupa num tanque de pedra. Pedi-lhe se me deixava encher o cantil.
De uma grande amabilidade, prontamente disse que sim e convidou-me a entrar no seu quintal. Bebeu da água com que lava a a roupa - para me mostrar que aquela água era mesmo boa, esperou que eu tirasse o cantil (ficou admiradíssimo com o meu water-bag), encheu-o, disse-me que aguardasse ali e entrou em casa.
Regressou com um tabuleiro onde tinha colocado dois copos, pão e uns bocados de carne de aspeto estranho mas um sabor delicioso.
Fiquei ali um bom pedaço a conversar com ele.
Falou-me dos filhos, que moravam no sul de Espanha, de como a mulher tinha falecido há uns anos, de como ele gostava de se sentar no quintal pelo meio da manhã a observar os peregrinos. De como ficava feliz quando eles, como eu, metiam conversa com ele e lhe faziam companhia ainda que por pouco tempo.
Comoveu-me, e tive pena de não poder estar ali mais umas horas.

(Ainda perto de Pontevedra)
Por esta altura, vi nos marcos os primeiros sapatos que ali eram deixados pelos peregrinos - provavelmente por não estarem já em condições de seguir

Entretanto apanhei os três portugueses, e seguimos a par durante um pedaço.
Muito animados, confesso que não sei bem como conseguiam andar aquele ritmo, conversar, brincar, contar anedotas e tudo o mais ao mesmo tempo. Ao pé deles, ninguém ficava indiferente ou desanimado. Desisti, com pena minha, de os tentar acompanhar. Disseram-me que iriam ficar a Valga, e eu fiquei contente por ir ter companhia nessa noite.

Cheguei a Caldas de Reis perto das 12h30.
Imensas pessoas pelas ruas.
Logo à entrada, quando tentava descobrir o caminho a seguir, reparo que do outro lado da estrada, dentro de um café, alguém me acenava. Reconheci a Hildegard, e fui ao seu encontro. Estranhei vê-la ali, uma vez que tinha ficado a dormir quando saímos do albergue nessa manhã, e perguntei-lhe como ali tinha chegado tão cedo. Tinha apanhado um autocarro**, e apenas tinha percorrido a pé os últimos 5km.
Comi qualquer coisa com ela, despedi-me e voltei a andar.


Recebi entretanto uma sms que me dizia que a Promessa da minha F. tinha sido antecipada e seria na 6ªf. Isto "estragou" os meus planos, e fez com que reformulasse de novo as etapas que tinha pela frente - ou então que saísse de Santiago praticamente no dia em que lá chegasse.
Se dúvidas tinha, abandonei-as. Estava a 12km de Valga, e decidi que os iria mesmo fazer.

Cruzei-me com o Mauro, que seguia muito rápido, e que me disse que ia mesmo seguir até Finisterra (o que eu adorava fazer...). Nesse dia iria ficar a Pontecesures (4km depois de Valga), depois Santiago e Finisterra em 3 dias. Trocámos emails e despedimo-nos.

Os últimos km antes de Valga foram penosos. Nova descida acentuada, e eu já não sabia bem o que me doía mais. O romeno "apanhou-me", e ao ver-me a coxear na descida, ralhou comigo. No seu inglês macarrónico disse-me que deveria dar passos mais pequenos, mas evitar cair sobre os joelhos com a força que estava a fazer, e sobretudo devia evitar dar passos maiores com uma perna do que com outra, ou além dos joelhos teria problemas na anca***.

Eis que no meio do nada, surge um jipe da Guardia Civil que... me manda parar. Acho que por essa altura até o meu cérebro já estava parado, porque a primeira reação que tive foi levar a mão à bolsa com os meus documentos, para os mostrar. O guarda riu-se, e simpaticamente fez-me um inquérito sobre o meu Caminho - nacionalidade, ponto de partida, destino daquele dia, idade, etc - era para as estatísticas da Guardia Civil. No fim, voltou a perguntar se necessitava de alguma coisa, ofereceu mapas da região e ainda me carimbou a Credencial.

Cheguei a Valga perto das 15h. Mais 33km percorridos nesse dia.
O albergue era novo, mas ficava no meio do nada (Valga propriamente dita era uns km mais abaixo, e o Caminho não passava diretamente por lá), e eu era a única peregrina. Boas instalações - 3 camaratas, boas wc, uma sala de estar/jantar espaçosa e com livros e revistas, equipada com loiça, placa e forno e frigorífico, zona para lavar roupa e respetiva máquina de lavar (avariada no entanto).

Quando me descalcei para tomar banho, percebi o porquê de outra nova dor: num dedo do pé, uma bolha de pus com um ar estranhíssimo estava mesmo por baixo da unha.
Blhhhharg!
Fui saber junto da alberguista se ali havia Centro de Saúde ou enfermaria. Perguntou-me porquê, e quando lhe disse ela referiu que havia, mas ficava a 2km. Desesperei...
Ao ver o meu ar, respondeu prontamente que me poderia levar lá, apenas tinha que esperar por um outro voluntário que assegurasse a abertura do albergue. Assim fiz. Fui tomar banho e esperei.

As horas passavam e convenci-me que os portugueses tinham decidido seguir até Pontecesures.
Quando já pensava que ia mesmo ficar ali sozinha nessa noite (e sem achar graça nenhuma a essa hipótese), oiço gargalhadas e vozes conhecidas. Eram o Pina, o Jorge e o Duarte (os 3 portugueses), acompanhados por um espanhol que eu já tinha visto com eles de manhã, mas que não conhecia. Fizeram-me uma grande festa quando me viram!

Eis que oiço alguém a perguntar por mim. Era o voluntário que tinha chegado para ir comigo ao hospital.

Um rapaz novo, levou-me de carro (eram 2km, mas multiplicados por vários), esperou por mim lá (atendimento fantástico) e trouxe-me de volta. Sempre de sorriso aberto e sem me aceitar um cêntimo. Quando regressámos ao albergue ainda me deu material para renovar os pensos no dia seguinte (por mais que eu lhe tivesse dito que tinha).
Foram todos simplesmente 5 estrelas!

Entretanto no albergue, eles tinham combinado fazer o jantar. Uma tal receita especial que metia esparguete, polpa de tomate e umas latas de conserva de mexilhões e carne (???). Fomos às compras ao tasco ali perto (e descansar, e beber uma estrella galicia, e conviver com os locais). Além das coisas necessárias para o esparguete, a dona do estabelecimento ainda nos convenceu a trazer um vinho caseiro (que se veio a revelar intragável), e ofereceu-nos as especiarias de que necessitávamos.

Connosco jantou também o tal espanhol, de seu nome Luis.
Este era desportista (o homem corria com uma mochila pesadíssima às costas), e tinha umas teorias um bocado estranhas (de que falarei mais adiante). Não bebia álcool, não comia porco (porque o porco ingere substâncias que nos são nocivas), não toma pequeno almoço (comer logo de manhã dá cansaço e faz mal ao organismo). Bem, mas era muito boa pessoa e uma companhia divertida. Dizia ele que ia apenas descansar um pouco, jantar, dormir cedo, e que se iria levantar às 3h para seguir caminho.
Claro que... não o fez!

O jantar no albergue foi uma animação pegada.



Chegaram entretanto 3 francesas de meia idade, que andavam a fazer o Caminho acompanhadas por um senhor num carro. Elas caminhavam ligeiras, ele ia transportando as coisas e guardava-lhes o lugar nos albergues. Não faço ideia onde dormia ele...
O que é certo é que elas não deviam nada à simpatia.

Os meus novos companheiros perguntaram-me até onde ia no dia seguinte. Eles iriam fazer direto até Santiago.
Convidaram-me a ir com eles, e eu hesitei. Tinha planeado no dia seguinte ir até Teo (16,6km), ficar lá e no dia seguinte fazer cedo os 14.3km até Santiago.
Mas o timming da chegada a casa, e a dificuldade com que sozinha tinha feito o dia de hoje fizeram-me pensar duas vezes. Sabia que se fosse com eles me iria distrair mais das dores, iria sem dúvida divertir-me, e teria ajuda se a coisa piorasse a sério.
Talvez se tivessem apercebido da minha hesitação. Insistiram bastante, e disseram alegremente que no dia seguinte iriam devagar, pois queriam aproveitar também eles para "descansar" e curtir melhor a chegada a Santiago. "Se fores connosco vamos ao teu ritmo", disseram várias vezes.
Resolvi que iria aproveitar a sua companhia.





*Comi pela primeira vez no Caminho (e única) a famosa torrada com azeite e tomate
** Soube depois que ela tinha colocado um pacemaker no ano anterior, e por isso não podia fazer esforços. Assim, apesar de continuar a percorrer os Caminhos, muitas vezes optava por esta tática
*** Como ele estava certo... nessa noite acrescentei uma nova dor - na anca

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Dia 2 - adenda

[UPDATED]


Devia ter saído de Redondela há coisa de 1h, quando me recordo de uma coisa "importante": tinha deixado no balneário a roupa que tinha lavado à chegada. Considerei voltar atrás, mas desisti - já tinha percorrido km a mais para me dar ao luxo de os fazer mais 2 vezes.
Aborreceu-me muito isto.
Porque a roupa interior era nova. Mas principalmente porque era a tshirt vermelha do Acanuc*.

Outras notas ao dia 2:
- A propósito dos tais emigrantes, refira-se que foram alvo de várias críticas por parte dos peregrinos que saíram mais tarde do albergue de Redondela (críticas acesas, por sinal).
Às 6h00 (em ponto), hora em que se levantaram, resolveram que toda a gente deveria acordar. Por isso, além das conversas entre si, num tom de quem conversa alegremente à mesa do jantar, acenderam as luzes das duas camaratas.
Entendiam eles que a partir das 6h00 era a hora da alvorada geral...

- Como referi, o albergue de Pontevedra encheu (e tinha duas camaratas - uma de 40 lugares - onde eu estava, e outra de 17).
O meu beliche era logo o segundo ao pé da porta, e toda a gente que entrava passava ali. Pouco depois das luzes se apagarem (e de ser suposto haver silêncio), um alemão entra na camarata, acende as luzes de repente e com um vozeirão anuncia que foi encontrada uma bolsa nas casas de banho.
A intenção dele foi boa, mas estávamos já mesmo naquela fase de adormecer... e ficámos danados com o termos acordado assim. Até porque as luzes tinham um temporizador que demorou bastante a apagar.







*escolhi o que levava para o Caminho de uma forma criteriosa, e aquela tshirt em particular era-me muito importante.

Dia 2 (Redondela-Pontevedra)

Comecei o dia cedo. 
Tínhamos combinado (o grupo de ontem) que o primeiro a acordar chamaria os outros. No entanto, acordei pelas 6h, perguntei à Anya se queria acordar e ela disse que não. Segui.
Saí do albergue às 7h00 de novo.
Encontrei-me cá em baixo com os três portugueses polícias, mas eles iam em passo acelerado.

De novo, sair de Redondela foi algo confuso. E aquela hora, como se pode calcular, poucos ou nenhuns moradores se encontravam pela rua (a um sábado, ainda por cima). Vi um à janela e confirmei com ele o trajeto dentro da localidade. Estava na direção certa.

Já nos arredores, começo a ouvir música. Cada vez mais alto a cada metro que andava.
Eis que chego a uma zona já de campo, e vejo um grupo de 3 ou 4 jovens que vinham vestidos para a festa (ou melhor dizendo, aquela hora vinham vestidos "da" festa). À minha esquerda, depois de um campo de futebol, via-se ao longe um terreiro e uma tenda grande, onde muita gente ainda dançava ao som de música de discoteca. E um grupo de 4 jovens cruza o meu caminho, os rostos denunciando o cansaço de quem não dormira, as roupas da festa.

À saída de Redondela, numa ponte sobre o caminho de ferro


A saída de Redondela é muito bonita, e cruza diversas vezes a linha do caminho de ferro.
Não fosse o facto de os primeiros 5km terem um desnível a subir de... 224m (!!?!!!) e seria quase perfeito!
É que se há coisa que eu aprendi relembrei neste meu Caminho é que todas as subidas têm 2 grandes defeitos:
1. São... a subir!
2. Depois de uma subida... há sempre uma dolorosa descida!


Ao passar por uma localidade chamada Arcade (perto das 8h), vejo um grupo de alemãs à porta de um hotel, que me olhavam com curiosidade. Tinham às costas pequenas mochilas de "passeio", e não lhes liguei muito. Pensei que me olhassem por causa de estar a coxear, ou que pela nacionalidade não me reconhecessem como peregrina.

Pontesampaio - onde se deu uma importante batalha na guerra pela independência espanhola


Passei este dia praticamente sozinha, e quase não me cruzei com ninguém. Até que o Mauro me "apanhou". Vinha de novo no seu passo acelerado, mas caminhou um pouco comigo.
Jovem de 30 anos, vem de Bergamo. Veio fazer o Caminho porque, à semelhança do que acontecia comigo, necessitava de um tempo para si próprio, um tempo longe das rotinas diárias, das pessoas. Estar com ele mesmo e tempo para pensar em si e no seu futuro. Comentou aquilo que eu própria pensava: o grupo dos dias anteriores era simpático, alegre e fazia boa companhia. No entanto, para Caminhar durante o dia, preferia fazê-lo sozinho, entregue apenas a si e aos seus pensamentos. Seguiu em frente, de passo ligeiro.

Eis que literalmente no meio do nada, encontro um quiosque.
O Mauro já se encontrava sentado, e eu parei também. O dia estava a aquecer e aproveitei para me refrescar, bem como colocar a joelheira elástica. Os joelhos continuavam a doer, e por esta altura já não conseguia distinguir qual era o pior.
Avisto um grupo que caminhava ligeiro, e reconheço as alemãs dessa manhã. Percebi porque me olharam com tanta curiosidade...

Resolvemos retomar a marcha, e de novo o Mauro seguiu à minha frente.

O percurso deste dia foi muito bonito. Muito campo, o rio, passei junto a locais fantásticos.
No entanto, foi igualmente muito duro, porque teve muitos declives, e os meus joelhos não estavam em condições. Aliás, descer é mesmo insuportável e várias vezes houve em que me vieram as lágrimas aos olhos de tanta dor. Mas... foi também 10km mais curto!

E por volta do meio dia, quando entrava em Pontevedra, oiço várias vozes a chamar por mim, em grande festa. Eram os 3 portugueses, o Mauro, outro peregrino que  vim a identificar como sendo o esloveno, e a francesa. Estavam todos na esplanada de um café, pois o albergue só abria às 13h. Juntei-me a eles e ali aguardámos a abertura.

O albergue de Pontevedra foi até hoje dos melhores, em termos de condições. Dispõe de cozinha, sala de estar, sala de comer, um grande relvado. Tinha ainda máquina de lavar e de secar roupa (em que me juntei com os portugueses e lavei tudo o que tinha).
Enquanto esperava pela roupa, fui sair com a Eva e os italianos (que entretanto tinham chegado).
Percorremos uma boa parte de Pontevedra em busca de um supermercado, mas era domingo e por isso estava tudo fechado. Acabámos nas tapas num centro comercial, onde também consegui wifi.

O Massimo em grande plano (depois das cervejas)

O jantar foi feito com o grupo todo (domingo, tudo fechado. Acabámos na estação rodoviária. Ainda cheia por causa das tapas, comi apenas uma sopa sem sabor - mas quentinha). Entretanto a Laura (a italiana mais novinha) estava também aflita dos joelhos, e decidiu que no dia seguinte abandonaria o Caminho, regressando a Itália.
O Rui deu-me um gel que aliviava as dores, e emprestou-me também uma joelheira para o outro joelho. Bonito! Pareço agora um espantalho cheio de remendos!
duas joelheiras... "modo espantalho" on

Calhou-me de novo uma cama de cima do beliche. Subir e descer era terrível, e optei por pendurar as coisas de que necessitava na armação da cama.
De novo ao final do dia, chegam os emigrantes portugueses. E a minha saga começa. Eis que a senhora que ficou ao meu lado na noite anterior (a mais velha) e que tinha ficado impressionada por eu estar sozinha, se armou em minha protetora e, segundo ela, tinha ficado mesmo muito apoquentada na noite anterior por ver que às 22h eu não estava na cama. Ela pensou que eu me tinha atrasado e tinha ficado do lado de fora do albergue. Havia de ouvir esta história várias vezes durante a noite*...

Ao contrário do que eu esperava (pelo que várias pessoas me tinham dito antes de eu partir), este albergue esgotou. Chegaram a negar a entrada a peregrinos que vinham de bicicleta.
Isto fez com que o grupo que entretanto se formava resolvesse acordar às 5h e sair cedo, para chegar cedo a Caldas de Reis (pelos vistos um albergue com menor capacidade) e arranjar lugar sem problemas.

Entretanto, já eu tinha começado a pensar em andar mais um pouco e seguir até Valga (8km depois de Caldas de Reis). Isto iria permitir-me "fugir" aos ditos possíveis problemas de espaço, bem como avançar no dia seguinte até Teo, reservando o último dia para os derradeiros 12km até Santiago, chegando lá mais cedo e ficando desta forma com mais umas horas para percorrer a cidade.
Resolvi ver como corria o dia seguinte, e tomar a decisão final consoante o meu estado físico. (já que o psicológico estava em alta)





* basicamente... a cada vez que passava por mim a senhora falava no mesmo. E isso irritava-me de sobremaneira...

domingo, 24 de junho de 2012

Dia 1 (Tui-Redondela)

Dormi mal.
Estava com medo de cair do beliche, estava ansiosa, estava com medo (???) de não acordar a tempo.
Pelas 5h30, comecei a ouvir outros peregrinos a acordarem - não que fizessem barulho, mas eu estava com o sono muito leve. Já não voltei a adormecer e portanto fui-me deixando estar deitada. Até que pelas 6h acabei mesmo por me levantar.

Meio taralhoca, não sabia muito bem o que fazer.
Tirei tudo da camarata, arrumei a mochila, devorei o pequeno almoço (sem fome nenhuma, pois o que queria era meter-me ao caminho) e saí.
 6h48 - noite ainda quando saí do albergue



No dia anterior tinha confirmado com o John o sítio onde "apanhava" o Caminho, e por isso seria fácil. 
De qualquer forma, saí ao mesmo tempo que um grupo de portugueses. 
Este grupo - um casal e uma amiga de idade já avançada, e o filho e nora do casal (os quatro primeiros emigrantes açorianos emigrados na Califórnia, e a jovem americana), vinham já desde o Porto. 
Demorei a perceber a sua nacionalidade, pois falavam em inglês mesmo uns com os outros, mas depois de ver que eram "tugas" recusei-me a falar inglês com eles, e entendemo-nos bem. Na conversa que dominou o primeiro dia com quem quer que me cruzasse, registei que foram os únicos (à exceção de mim e do John) que pretendiam seguir até Redondela e não Porrinho. Espantei-me* quando comentaram isso comigo - como é que pessoas com mais de 60 anos, que já estão a caminhar há uns cinco dias, vão conseguir fazer 32km??? Depois percebi...
Lembro-me que as senhoras mais velhas ficaram espantadíssimas (e até zelosas da minha pessoa, como vim a comprovar uns dias mais tarde) por me verem sozinha a fazer o Caminho.

Fiz com eles a travessia de Tui, mas depois ao ver que continuavam num passo muito vagaroso, desejei-lhes um Bon Camino e segui.

Conheci um austríaco (o que ontem me tinha convidado para beber vinho com eles).
Afinal vem sozinho, mas o grupo de ontem tem feito o percurso a par desde o Porto (há uma semana), e ontem resolveram fazer uma festa no albergue. Não cheguei a saber o nome dele.
Já é a 5ª vez que faz o Caminho, e ficou surpreendido quando lhe disse que ia tentar chegar a Redondela. Eles vão todos ficar em Porrinho.

O austríaco, com a tshirt vermelha

Antes de Porrinho, e quando pensava que tinha seguido por algum percurso diferente (parva que eu sou, às vezes), a tal reta sem fim que a Tânia me tinha falado. Uma verdadeira seca... andar, andar, andar pelo meio de uma zona industrial, sem avistar o fim. Como o terreno era plano (embora andar no alcatrão me canse mais), liguei o turbo e acelerei.
Reparei que o John e duas coreanas que tinha visto no albergue de Tui vinham atrás de mim.

À entrada de Porrinho, vejo um cafe e paro um pouco.
Parei para comer qualquer coisa. Com o café com leite veio um... bolo.
Sentei-me cá fora e aos poucos começaram a chegar os peregrinos que vinham atrás de mim, entre eles o John e as coreanas. Estas ainda tentaram meter conversa, mas o seu inglês era mauzito, e pouco se faziam entender ou nos entendiam a nós. Também não pareceram muito aborrecidas com isso.
Voltei a discutir o meu percurso com o John. Todos os outros iam ficar por Porrinho, o que muito me admirava a mim, e a minha ida em frente admirava-os a eles.
Afinal, eram ainda 10h. O que iria eu fazer esse tempo todo ali? Fiz-me à estrada.


Ao atravessar Porrinho ia-me perdendo por duas vezes. A primeira, ao atravessar uma zona em obras e que não estava sinalizada. A segunda vez, valeu-me um espanhol que me identificou e me disse que estava na rua errada. De novo, os habitantes locais simpáticos e solícitos. O John teve as mesmas dificuldades que eu, e como seguia pouco atrás de mim, auxiliei-o também. Sem o saber, foi a última vez que o vi...


Entretanto pelo caminho fui "apanhada" por dois italianos - o Mauro e o Massimo, que tinham um ritmo bem mais rápido que o meu, mas como estavam sempre a parar acabávamos por andar a par e passo. Parámos em Mos numa bodega - eles para comer e eu para carimbar a Credencial.
Bebi uma cerveja que veio acompanhada com... bolo. (se fome tivesse, ficava cheia só com o tamanho das fatias de bolo que eles servem). Fiquei a saber que embora sendo os dois italianos, só ali se tinham conhecido. Vinham desde Porto, há 4 dias.
Segui, deixando-os a comer.


A partir daqui foi sempre a subir durante algum tempo, o que me fez abrandar o passo. Não que tivesse pressa, mas gostava de levar um ritmo mais rápido.
(nesta fase do Caminho os marcos eram menos do que para a frente. Desta forma, e uma vez que eu não levei mapas, não tinha bem a noção da velocidade (km/h) a que andava)


Eis que a aproximadamente 8km de Redondela, numa zona florestal muito bonita (e a subir) começou a chover. Coloquei a cobertura na mochila e segui sem impermeável, pois a chuva era ainda fraca. Um pouco mais à frente, a água começou a cair com intensidade e tive mesmo de o vestir.
Tinha fome, mas não encontrava um sítio abrigado para comer. Até que encontrei uma paragem de autocarro. Tinha comprado no dia anterior uma salada fria, que para mal dos meus pecados vinha carregadinha de pimentos - escusado será dizer que o meu estômago não concordou com o petisco. Mas a fome era negra...


Começou aqui a descida.
Num muro, reparo numa imagem (estava demasiada chuva para me atrever a tirar o telemóvel ou a máquina fotográfica) que mostrava basicamente um triângulo. No alto dizia "N. Sra. Villar", tinha uma seta que dizia "6km" e descia até ao canto de baixo (íngreme) onde estava "Redondela". Ao lado estava escrito "Nossa Senhora de Villar ajuda-te".
Mais tarde entendi o significado daquilo...

Uma descida íngreme, com muitas curvas, e debaixo de chuva torrencial.
Tal como no ano passado nos Pirinéus, os meus joelhos começaram a dar de si, e com muita força. Fazer aquela descida foi muito doloroso, e agradeci ter trazido os bastões. Andava mesmo muito devagar.
No pé esquerdo, a desconfiança quase certa de que uma bolha estava a dar o ar de sua graça**.
Descendo, sempre a descer, fui avançando.
Quando por fim terminou a descida (pareceram-me horas), senti-me de novo perdida. Havia muito tempo que não avistava qualquer sinalização. Tive medo de ter passado por alguma e não a ter visto por causa da chuva. Ponderei por duas vezes voltar para trás. Lembrava-me do relato do Rui sobre peregrinos que se perdiam e tinha de voltar a fazer vários km. Por momentos demasiado longos, senti-me sem norte.
Resolvi seguir em frente, e foi o melhor que fiz!

Entrei em Redondela às 15h00.
Tinha feito os 32km que me tinha proposto para aquele primeiro dia!!! Estava feliz por chegar ao fim do meu primeiro dia no Caminho. Estava feliz por ter feito tantos km. Estava feliz por tudo o que tinha visto, tudo o que tinha descoberto, todas as pessoas que tinha conhecido e com quem tinha falado.
De uma forma incontrolável, comecei a chorar de alegria (estava a tornar-se um hábito). Acalmei-me e fui à procura do albergue.

Quando lá cheguei estava encharcada, por fora e por dentro do impermeável (chovia, mas a temperatura era amena). Fiz check-in (a alberguista teve de me ajudar a secar o telefone, que ia na bolsa do impermeável e estava ensopado), fui instalar-me e tomei um duche.

O albergue de Redondela é bonito, mas as camaratas são super apertadas. Escolhi uma cama numa ponta, para ter algum espaço de manobra.
Confirmei a bolha na planta do pé, e socorri-me da velha técnica da agulha e linha. Uma massagem e um descanso merecido, enquanto escrevia.

Começavam a chegar peregrinos de todos os lados.
Meti conversa com uns portugueses - um casal de aveiro e três polícias de Lisboa.
Já perto das 18h00, quando saí para ir ao supermercado, vejo os portugueses que tinham saído comigo de Tui. Chegaram bem mais tarde, mas lá vinham eles!

Entretanto, uma das portuguesas de meia-idade, ao ver que eu estava na cama da ponta, perguntou-me se não me importava que viesse para a cama junto à minha***. Concordei.
Ao vaguear por Redondela, tive oportunidade de ver uma festa de jovens, com música, dança, artesanato e muita cerveja. Avistei os portugueses, que estavam com um grupo e convidaram-me para jantar.
Era um grupo altamente sui generis e muitíssimo heterogéneo em todos os sentidos: 2 portugueses, 3 alemães, 2 italianos (os que tinha encontrado durante a manhã); idades entre os 19 e os 58 anos; profissões o mais diversas possível.


Foi divertido pela companhia, mas a comida não foi nada de jeito e o vinho era pavoroso.
De regresso ao albergue, ficámos um bom pedaço à conversa e a beber vinho junto à porta, até que a hospitaleira nos veio avisar que teríamos de entrar. Mas deixou-nos ficar na sala de estudo, onde ainda estivémos a ouvir música durante um bom bocado. O Massimo tinha trazido do Porto uma garrafa de Vinho do Porto (????), que abriu.
Antes de me de me deitar, um dos portugueses ainda me "ofereceu" uma massagem nos joelhos, que me soube muito bem e me ajudou a relaxar.

Deitei-me às 00h30, mas custou-me imenso a adormecer. A senhora ao meu lado ressonava brutalmente, e outros tantos pela camarata faziam o mesmo. Por outro lado, eu estava cansada mas excitada com as aventuras e descobertas do dia, e ansiosa pelas que viriam no dia seguinte.
O grupo com que jantei tinha combinado caminhar em conjunto na manhã seguinte, e convidaram-me para ir com eles. Hesitei, mas disse que em princípio iria.
Pouco dormi.









*O ritmo que tinham permitia-lhes fazer mais km, embora em mais tempo. O "espanto" deveu-se ao facto de, ao contrário do John, estes peregrinos não estarem habituados a caminhar nem a fazer exercício
** para o que me havia de dar depois de velha... eu que nunca fiz bolhas 
*** Apesar de os beliches serem individuais, como o espaço era pouco os mesmos estavam juntos 2 a 2