Depois de alguns percalços, acabei por ir de autocarro.
Não me venderam bilhete para Valença porque era uma linha internacional (???), mas sim para Tui. Falei com o motorista, que me disse que não haveria problema em sair antes, desde que o autocarro lá parasse.
Durante a viagem (que durou 8h), fui "desligando" de mails, sms, internet, e tudo e tudo - ao ponto de ter gasto quase 2 baterias no telemóvel...
Estava a dormitar quando sinto o autocarro a parar e o motorista a gritar "Passageiros para Tui!" (que afinal se resumia a mim), e demorei alguns segundos até perceber que Valença tinha ficado para trás e tinha de sair ali. Surpreendida e estremunhada (a noite foi curta e o sono muito difícil), saio do autocarro e dou comigo numa bomba de gasolina, quase no meio do nada.
Senti-me perdida, literalmente atirada para ali.
Foi quando me apercebi que tinha começado.
Pela primeira vez (de muitas nos dias que se seguiram), chorei de emoção. De medo. Muito medo.
Tinha começado e eu não fazia a mais pequena ideia para que lado devia ir.
Ainda sem perceber nada da coisa, nem me ocorreu perguntar aos homens que estavam na bomba de gasolina e olhavam para mim. Queria era sair daquele lugar o mais rapidamente possível.
Instintivamente, resolvi seguir os símbolos que estavam na calçada. (foto abaixo)
Só correu bem por mero acaso... porque aqueles eram meramente decorativos.
Eram 15h20 e estava um calor abrasador. Avisto 2 peregrinos atrás de mim e pela segunda vez no espaço de 5 minutos, fiz o oposto do que deveria ter feito: em vez de lhes perguntar a direção a seguir, resolvo por-me a andar mais depressa que eles - não queria dar parte de novata!
Avistei ao longe a catedral e recordei o que o Rui me tinha dito "o albergue municipal fica mesmo por trás da catedral". Foi fácil a partir dali, e rapidamente encontrei as famosas setas amarelas, muito bem sinalizadas.
Encontrei a catedral, e quis entrar lá como peregrina, ainda de mochila.
Tudo me veio à cabeça naqueles minutos que ali estive... até que tive de sair porque o funcionário que controlava as entradas deve ter achado estranho eu estar ali a chorar convulsivamente e me veio perguntar se precisava de alguma coisa. Resolvi ir até ao albergue.
Lá, a alberguista não queria deixar-me ficar sem aguardar pelas 22h, uma vez que eu estava a começar. No entanto, pouco depois chega uma peregrina croata, que apenas falava inglês, e a comunicação entre as duas tornou-se complicada. Servi de intérprete, e como agradecimento ela deixou-me entrar :).
Aquilo para mim foi um mundo novo.
Tomei banho, visitei cada recanto do albergue, lavei roupa, coloquei o telefone a carregar e saí.
Fui comprar comida para o dia seguinte, regressei, lanchei, voltei a sair.
Basicamente, não sabia o que fazer com o tempo livre que tinha até às 22h (hora de encerramento do albergue).
Por lá, outros peregrinos chegavam, iam-se instalando, andavam por ali, entravam, saíam. Sem conhecer ninguém e tentando absorver tudo o que se passava à minha volta, sentia-me estranhamente calma e em casa.
Porta do Albergue de Tui
Saí de novo, para visitar a catedral, os arredores, e jantar.
Enquanto procurava um local para comer, cruzei-me com um peregrino mais velho, que procurava o mesmo que eu. Juntos encontrámos uma esplanada agradável no centro de Tui.
Entre o jantar e a conversa, estivemos juntos mais de 2h, e o tempo voou.
O John, um americano de 68 anos, estava também a iniciar o Caminho. A diferença entre nós é que ele faz o Caminho de Santiago desde há 4 anos, e afirma querer fazer um todos anos, enquanto puder. E tinha chegado de Finisterra no dia anterior, onde tinha terminado uma parte do Caminho Francês. Mas como não queria ir já para casa, resolveu fazer mais o Português...
Tudo o que aquele homem partilhou comigo, fez todo o sentido para mim. Para o meu início de Caminho, para tudo o que eu levava na bagagem e na mente.
Falou-me de coisas que me tocaram, que me diziam respeito, as coincidências não podiam ser coincidências. O John não apareceu ali naquela primeira noite por acaso!
Separámo-nos (ele tinha ficado num albergue particular), e eu fui em busca de um local com wifi, para dar notícias para casa.
Queria escrever, mas a esplanada onde bebi uma Estrella Galicia tinha música tecno, e ao fundo noutra esplanada ouvia-se... Fado.
(fado - sentado sim - numa esplanada em Tui)
Regressei ao albergue, arranjei as coisas para o dia seguinte e fui para o fantástico pátio escrever e relaxar.
Um grupo de alemães (pensava eu na altura) bebia vinho e fazia uma festa. Ao passar por eles convidaram-me a juntar-me ao grupo, mas estava cansada e cheia de sono.
Resolvi que no dia seguinte me iria levantar às 6h30, para tentar ir até Pontevedra.
Vista do meu beliche (cama de cima...)
Bom começo :)
ResponderEliminarMal posso esperar pelos relatos dos próximos dias :)
ResponderEliminarPois é, nunca mais me lembrei desse pormenor de só poder entrar mais tarde no albergue. Eu entrei duas horas depois de ter chegado. Deixei lá a mochila, fui comprar comida, e quando regressei com o saco do supermercado, ela deixou-me subir. Apesar de na Galiza serem todos funcionários municipais em vez dos tradicionais hospitaleiros do resto do Caminho, não tenho nenhuma razão de queixa deles no Caminho Português, e é justo dar prioridade nas camas aos peregrinos que chegam a pé nesse dia aos que vão começar o Caminho.
Vá, quando é que escreves o próximo dia? ;)
Estão a sair!!!
ResponderEliminarSim, claro que a prioridade estabelecida é justa. Eu fiquei surpreendida apenas porque não estava à espera. Mas mesmo que tivesse de esperar, sem problema algum!
(e o albergue não chegou a metade sequer)