O Massimo acordou-me às 5h00 (estava eu ferradíssima), para partirmos juntos. Ao início pareceu-me boa ideia, mas vim a descobrir que estava errada.
Tratei dos joelhos com o gel que alivia as dores musculares, e saímos. Parámos para tomar o pequeno almoço* - uma vez que não tínhamos conseguido comprar nada, e este pequeno almoço demorou uma eternidade. Não que tivesse pressa, mas se me tinha levantado cedo, era porque queria começar a andar cedo, e não exatamente perder tempo na conversa.
Por incrível que pareça, só começámos a andar pelas 6h30... e porque a Eva, que pelos vistos pensava o mesmo que eu, se levantou e foi embora.
De qualquer forma, rapidamente o grupo começou a desfazer-se, graças aos diferentes ritmos de andamento das 8 pessoas que o compunham. A Laura tinha entretanto resolvido ficar e seguir, ainda que o fizesse mais devagar.
O início de dia correu bem. Depois de "aquecer", a dor nos joelhos acabava por passar (ou adormecer). O pior era mesmo parar, arrefecer e voltar a andar.
Resolvi que, para me "proteger", nesse dia não iria parar. Iria caminhar mais devagar, mas excetuando a obrigatória pausa para comprar e comer qualquer coisa, não iria fazer paragens
Pouco depois desta foto, eles continuaram e eu fui ficando para trás. (não sei como, porque a Anja tinha as solas dos pés feitas numa bolha pegada...). Mais atrás ainda, seguiam o Rui, com a Eva e a Laura.
Sabia, pela análise do trajeto, que hoje me iria defrontar com mais subidas... e descidas. Procurei não pensar no assunto e concentrar-me na paisagem, nos meus objetivos desta aventura e no que me tinha levado ali.
A aproximadamente metade do trajeto entre Pontevedra e Caldas de Reis, o pessoal estava sentado num café a beber e a comer. Comentei que iria mesmo tentar chegar a Valga nesse dia. O Mauro perguntou-me se estava a falar a sério...
Observei a descida que me esperava e percebi que seria pior parar ali e depois enfrentar as dores. Continuei.
Apesar disso, andei relativamente bem durante este dia, que ficou quente e seco.
No entanto, e como tinha optado por não encher o cantil, para não carregar mais esses 2kg, e já perto da hora de almoço fiquei sem água. Tinha uma nova subida pela frente, não encontrava uma fonte e comecei a ficar preocupada.
Talvez porque estava a atravessar pequenas localidades de interior, e desta vez era 2ª feira (supostamente as pessoas estariam a trabalhar), nem sequer via nenhum habitante a quem pudesse pedir água. Confesso que cheguei a considerar entrar em algum quintal e procurar uma torneira, mas contive-me.
Até que passo por uma casa onde um senhor de idade lavava roupa num tanque de pedra. Pedi-lhe se me deixava encher o cantil.
De uma grande amabilidade, prontamente disse que sim e convidou-me a entrar no seu quintal. Bebeu da água com que lava a a roupa - para me mostrar que aquela água era mesmo boa, esperou que eu tirasse o cantil (ficou admiradíssimo com o meu water-bag), encheu-o, disse-me que aguardasse ali e entrou em casa.
Regressou com um tabuleiro onde tinha colocado dois copos, pão e uns bocados de carne de aspeto estranho mas um sabor delicioso.
Fiquei ali um bom pedaço a conversar com ele.
Falou-me dos filhos, que moravam no sul de Espanha, de como a mulher tinha falecido há uns anos, de como ele gostava de se sentar no quintal pelo meio da manhã a observar os peregrinos. De como ficava feliz quando eles, como eu, metiam conversa com ele e lhe faziam companhia ainda que por pouco tempo.
Comoveu-me, e tive pena de não poder estar ali mais umas horas.
Sabia, pela análise do trajeto, que hoje me iria defrontar com mais subidas... e descidas. Procurei não pensar no assunto e concentrar-me na paisagem, nos meus objetivos desta aventura e no que me tinha levado ali.
A aproximadamente metade do trajeto entre Pontevedra e Caldas de Reis, o pessoal estava sentado num café a beber e a comer. Comentei que iria mesmo tentar chegar a Valga nesse dia. O Mauro perguntou-me se estava a falar a sério...
Observei a descida que me esperava e percebi que seria pior parar ali e depois enfrentar as dores. Continuei.
Apesar disso, andei relativamente bem durante este dia, que ficou quente e seco.
No entanto, e como tinha optado por não encher o cantil, para não carregar mais esses 2kg, e já perto da hora de almoço fiquei sem água. Tinha uma nova subida pela frente, não encontrava uma fonte e comecei a ficar preocupada.
A atravessar San Caetano. Laura e Rui em 1º plano, lá ao fundo eu e os alemães (foto da Eva)
Talvez porque estava a atravessar pequenas localidades de interior, e desta vez era 2ª feira (supostamente as pessoas estariam a trabalhar), nem sequer via nenhum habitante a quem pudesse pedir água. Confesso que cheguei a considerar entrar em algum quintal e procurar uma torneira, mas contive-me.
Até que passo por uma casa onde um senhor de idade lavava roupa num tanque de pedra. Pedi-lhe se me deixava encher o cantil.
De uma grande amabilidade, prontamente disse que sim e convidou-me a entrar no seu quintal. Bebeu da água com que lava a a roupa - para me mostrar que aquela água era mesmo boa, esperou que eu tirasse o cantil (ficou admiradíssimo com o meu water-bag), encheu-o, disse-me que aguardasse ali e entrou em casa.
Regressou com um tabuleiro onde tinha colocado dois copos, pão e uns bocados de carne de aspeto estranho mas um sabor delicioso.
Fiquei ali um bom pedaço a conversar com ele.
Falou-me dos filhos, que moravam no sul de Espanha, de como a mulher tinha falecido há uns anos, de como ele gostava de se sentar no quintal pelo meio da manhã a observar os peregrinos. De como ficava feliz quando eles, como eu, metiam conversa com ele e lhe faziam companhia ainda que por pouco tempo.
Comoveu-me, e tive pena de não poder estar ali mais umas horas.
(Ainda perto de Pontevedra)
Por esta altura, vi nos marcos os primeiros sapatos que ali eram deixados pelos peregrinos - provavelmente por não estarem já em condições de seguir
Entretanto apanhei os três portugueses, e seguimos a par durante um pedaço.
Muito animados, confesso que não sei bem como conseguiam andar aquele ritmo, conversar, brincar, contar anedotas e tudo o mais ao mesmo tempo. Ao pé deles, ninguém ficava indiferente ou desanimado. Desisti, com pena minha, de os tentar acompanhar. Disseram-me que iriam ficar a Valga, e eu fiquei contente por ir ter companhia nessa noite.
Cheguei a Caldas de Reis perto das 12h30.
Imensas pessoas pelas ruas.
Logo à entrada, quando tentava descobrir o caminho a seguir, reparo que do outro lado da estrada, dentro de um café, alguém me acenava. Reconheci a Hildegard, e fui ao seu encontro. Estranhei vê-la ali, uma vez que tinha ficado a dormir quando saímos do albergue nessa manhã, e perguntei-lhe como ali tinha chegado tão cedo. Tinha apanhado um autocarro**, e apenas tinha percorrido a pé os últimos 5km.
Comi qualquer coisa com ela, despedi-me e voltei a andar.
Recebi entretanto uma sms que me dizia que a Promessa da minha F. tinha sido antecipada e seria na 6ªf. Isto "estragou" os meus planos, e fez com que reformulasse de novo as etapas que tinha pela frente - ou então que saísse de Santiago praticamente no dia em que lá chegasse.
Se dúvidas tinha, abandonei-as. Estava a 12km de Valga, e decidi que os iria mesmo fazer.
Cruzei-me com o Mauro, que seguia muito rápido, e que me disse que ia mesmo seguir até Finisterra (o que eu adorava fazer...). Nesse dia iria ficar a Pontecesures (4km depois de Valga), depois Santiago e Finisterra em 3 dias. Trocámos emails e despedimo-nos.
Os últimos km antes de Valga foram penosos. Nova descida acentuada, e eu já não sabia bem o que me doía mais. O romeno "apanhou-me", e ao ver-me a coxear na descida, ralhou comigo. No seu inglês macarrónico disse-me que deveria dar passos mais pequenos, mas evitar cair sobre os joelhos com a força que estava a fazer, e sobretudo devia evitar dar passos maiores com uma perna do que com outra, ou além dos joelhos teria problemas na anca***.
Eis que no meio do nada, surge um jipe da Guardia Civil que... me manda parar. Acho que por essa altura até o meu cérebro já estava parado, porque a primeira reação que tive foi levar a mão à bolsa com os meus documentos, para os mostrar. O guarda riu-se, e simpaticamente fez-me um inquérito sobre o meu Caminho - nacionalidade, ponto de partida, destino daquele dia, idade, etc - era para as estatísticas da Guardia Civil. No fim, voltou a perguntar se necessitava de alguma coisa, ofereceu mapas da região e ainda me carimbou a Credencial.
Cheguei a Valga perto das 15h. Mais 33km percorridos nesse dia.
O albergue era novo, mas ficava no meio do nada (Valga propriamente dita era uns km mais abaixo, e o Caminho não passava diretamente por lá), e eu era a única peregrina. Boas instalações - 3 camaratas, boas wc, uma sala de estar/jantar espaçosa e com livros e revistas, equipada com loiça, placa e forno e frigorífico, zona para lavar roupa e respetiva máquina de lavar (avariada no entanto).
Quando me descalcei para tomar banho, percebi o porquê de outra nova dor: num dedo do pé, uma bolha de pus com um ar estranhíssimo estava mesmo por baixo da unha.
Blhhhharg!
Fui saber junto da alberguista se ali havia Centro de Saúde ou enfermaria. Perguntou-me porquê, e quando lhe disse ela referiu que havia, mas ficava a 2km. Desesperei...
Ao ver o meu ar, respondeu prontamente que me poderia levar lá, apenas tinha que esperar por um outro voluntário que assegurasse a abertura do albergue. Assim fiz. Fui tomar banho e esperei.
As horas passavam e convenci-me que os portugueses tinham decidido seguir até Pontecesures.
Quando já pensava que ia mesmo ficar ali sozinha nessa noite (e sem achar graça nenhuma a essa hipótese), oiço gargalhadas e vozes conhecidas. Eram o Pina, o Jorge e o Duarte (os 3 portugueses), acompanhados por um espanhol que eu já tinha visto com eles de manhã, mas que não conhecia. Fizeram-me uma grande festa quando me viram!
Eis que oiço alguém a perguntar por mim. Era o voluntário que tinha chegado para ir comigo ao hospital.
Um rapaz novo, levou-me de carro (eram 2km, mas multiplicados por vários), esperou por mim lá (atendimento fantástico) e trouxe-me de volta. Sempre de sorriso aberto e sem me aceitar um cêntimo. Quando regressámos ao albergue ainda me deu material para renovar os pensos no dia seguinte (por mais que eu lhe tivesse dito que tinha).
Foram todos simplesmente 5 estrelas!
Entretanto no albergue, eles tinham combinado fazer o jantar. Uma tal receita especial que metia esparguete, polpa de tomate e umas latas de conserva de mexilhões e carne (???). Fomos às compras ao tasco ali perto (e descansar, e beber uma estrella galicia, e conviver com os locais). Além das coisas necessárias para o esparguete, a dona do estabelecimento ainda nos convenceu a trazer um vinho caseiro (que se veio a revelar intragável), e ofereceu-nos as especiarias de que necessitávamos.
Connosco jantou também o tal espanhol, de seu nome Luis.
Este era desportista (o homem corria com uma mochila pesadíssima às costas), e tinha umas teorias um bocado estranhas (de que falarei mais adiante). Não bebia álcool, não comia porco (porque o porco ingere substâncias que nos são nocivas), não toma pequeno almoço (comer logo de manhã dá cansaço e faz mal ao organismo). Bem, mas era muito boa pessoa e uma companhia divertida. Dizia ele que ia apenas descansar um pouco, jantar, dormir cedo, e que se iria levantar às 3h para seguir caminho.
Claro que... não o fez!
O jantar no albergue foi uma animação pegada.
Chegaram entretanto 3 francesas de meia idade, que andavam a fazer o Caminho acompanhadas por um senhor num carro. Elas caminhavam ligeiras, ele ia transportando as coisas e guardava-lhes o lugar nos albergues. Não faço ideia onde dormia ele...
O que é certo é que elas não deviam nada à simpatia.
Os meus novos companheiros perguntaram-me até onde ia no dia seguinte. Eles iriam fazer direto até Santiago.
Convidaram-me a ir com eles, e eu hesitei. Tinha planeado no dia seguinte ir até Teo (16,6km), ficar lá e no dia seguinte fazer cedo os 14.3km até Santiago.
Mas o timming da chegada a casa, e a dificuldade com que sozinha tinha feito o dia de hoje fizeram-me pensar duas vezes. Sabia que se fosse com eles me iria distrair mais das dores, iria sem dúvida divertir-me, e teria ajuda se a coisa piorasse a sério.
Talvez se tivessem apercebido da minha hesitação. Insistiram bastante, e disseram alegremente que no dia seguinte iriam devagar, pois queriam aproveitar também eles para "descansar" e curtir melhor a chegada a Santiago. "Se fores connosco vamos ao teu ritmo", disseram várias vezes.
Resolvi que iria aproveitar a sua companhia.
*Comi pela primeira vez no Caminho (e única) a famosa torrada com azeite e tomate
** Soube depois que ela tinha colocado um pacemaker no ano anterior, e por isso não podia fazer esforços. Assim, apesar de continuar a percorrer os Caminhos, muitas vezes optava por esta tática
*** Como ele estava certo... nessa noite acrescentei uma nova dor - na anca
** Soube depois que ela tinha colocado um pacemaker no ano anterior, e por isso não podia fazer esforços. Assim, apesar de continuar a percorrer os Caminhos, muitas vezes optava por esta tática
*** Como ele estava certo... nessa noite acrescentei uma nova dor - na anca





Hehehe. Os Caminho de Santiago são peritos em trocarem-nos as voltas. Nunca ficamos exactamente onde pensámos que iríamos ficar, e "obriga-nos" sempre a andar mais, ou andar menos do que aquilo que queríamos inicialmente. Já estou mesmo a ver que fizeste o Caminho em 4 dias! :)
ResponderEliminarPois fiz Rui...
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