domingo, 24 de junho de 2012

Dia 1 (Tui-Redondela)

Dormi mal.
Estava com medo de cair do beliche, estava ansiosa, estava com medo (???) de não acordar a tempo.
Pelas 5h30, comecei a ouvir outros peregrinos a acordarem - não que fizessem barulho, mas eu estava com o sono muito leve. Já não voltei a adormecer e portanto fui-me deixando estar deitada. Até que pelas 6h acabei mesmo por me levantar.

Meio taralhoca, não sabia muito bem o que fazer.
Tirei tudo da camarata, arrumei a mochila, devorei o pequeno almoço (sem fome nenhuma, pois o que queria era meter-me ao caminho) e saí.
 6h48 - noite ainda quando saí do albergue



No dia anterior tinha confirmado com o John o sítio onde "apanhava" o Caminho, e por isso seria fácil. 
De qualquer forma, saí ao mesmo tempo que um grupo de portugueses. 
Este grupo - um casal e uma amiga de idade já avançada, e o filho e nora do casal (os quatro primeiros emigrantes açorianos emigrados na Califórnia, e a jovem americana), vinham já desde o Porto. 
Demorei a perceber a sua nacionalidade, pois falavam em inglês mesmo uns com os outros, mas depois de ver que eram "tugas" recusei-me a falar inglês com eles, e entendemo-nos bem. Na conversa que dominou o primeiro dia com quem quer que me cruzasse, registei que foram os únicos (à exceção de mim e do John) que pretendiam seguir até Redondela e não Porrinho. Espantei-me* quando comentaram isso comigo - como é que pessoas com mais de 60 anos, que já estão a caminhar há uns cinco dias, vão conseguir fazer 32km??? Depois percebi...
Lembro-me que as senhoras mais velhas ficaram espantadíssimas (e até zelosas da minha pessoa, como vim a comprovar uns dias mais tarde) por me verem sozinha a fazer o Caminho.

Fiz com eles a travessia de Tui, mas depois ao ver que continuavam num passo muito vagaroso, desejei-lhes um Bon Camino e segui.

Conheci um austríaco (o que ontem me tinha convidado para beber vinho com eles).
Afinal vem sozinho, mas o grupo de ontem tem feito o percurso a par desde o Porto (há uma semana), e ontem resolveram fazer uma festa no albergue. Não cheguei a saber o nome dele.
Já é a 5ª vez que faz o Caminho, e ficou surpreendido quando lhe disse que ia tentar chegar a Redondela. Eles vão todos ficar em Porrinho.

O austríaco, com a tshirt vermelha

Antes de Porrinho, e quando pensava que tinha seguido por algum percurso diferente (parva que eu sou, às vezes), a tal reta sem fim que a Tânia me tinha falado. Uma verdadeira seca... andar, andar, andar pelo meio de uma zona industrial, sem avistar o fim. Como o terreno era plano (embora andar no alcatrão me canse mais), liguei o turbo e acelerei.
Reparei que o John e duas coreanas que tinha visto no albergue de Tui vinham atrás de mim.

À entrada de Porrinho, vejo um cafe e paro um pouco.
Parei para comer qualquer coisa. Com o café com leite veio um... bolo.
Sentei-me cá fora e aos poucos começaram a chegar os peregrinos que vinham atrás de mim, entre eles o John e as coreanas. Estas ainda tentaram meter conversa, mas o seu inglês era mauzito, e pouco se faziam entender ou nos entendiam a nós. Também não pareceram muito aborrecidas com isso.
Voltei a discutir o meu percurso com o John. Todos os outros iam ficar por Porrinho, o que muito me admirava a mim, e a minha ida em frente admirava-os a eles.
Afinal, eram ainda 10h. O que iria eu fazer esse tempo todo ali? Fiz-me à estrada.


Ao atravessar Porrinho ia-me perdendo por duas vezes. A primeira, ao atravessar uma zona em obras e que não estava sinalizada. A segunda vez, valeu-me um espanhol que me identificou e me disse que estava na rua errada. De novo, os habitantes locais simpáticos e solícitos. O John teve as mesmas dificuldades que eu, e como seguia pouco atrás de mim, auxiliei-o também. Sem o saber, foi a última vez que o vi...


Entretanto pelo caminho fui "apanhada" por dois italianos - o Mauro e o Massimo, que tinham um ritmo bem mais rápido que o meu, mas como estavam sempre a parar acabávamos por andar a par e passo. Parámos em Mos numa bodega - eles para comer e eu para carimbar a Credencial.
Bebi uma cerveja que veio acompanhada com... bolo. (se fome tivesse, ficava cheia só com o tamanho das fatias de bolo que eles servem). Fiquei a saber que embora sendo os dois italianos, só ali se tinham conhecido. Vinham desde Porto, há 4 dias.
Segui, deixando-os a comer.


A partir daqui foi sempre a subir durante algum tempo, o que me fez abrandar o passo. Não que tivesse pressa, mas gostava de levar um ritmo mais rápido.
(nesta fase do Caminho os marcos eram menos do que para a frente. Desta forma, e uma vez que eu não levei mapas, não tinha bem a noção da velocidade (km/h) a que andava)


Eis que a aproximadamente 8km de Redondela, numa zona florestal muito bonita (e a subir) começou a chover. Coloquei a cobertura na mochila e segui sem impermeável, pois a chuva era ainda fraca. Um pouco mais à frente, a água começou a cair com intensidade e tive mesmo de o vestir.
Tinha fome, mas não encontrava um sítio abrigado para comer. Até que encontrei uma paragem de autocarro. Tinha comprado no dia anterior uma salada fria, que para mal dos meus pecados vinha carregadinha de pimentos - escusado será dizer que o meu estômago não concordou com o petisco. Mas a fome era negra...


Começou aqui a descida.
Num muro, reparo numa imagem (estava demasiada chuva para me atrever a tirar o telemóvel ou a máquina fotográfica) que mostrava basicamente um triângulo. No alto dizia "N. Sra. Villar", tinha uma seta que dizia "6km" e descia até ao canto de baixo (íngreme) onde estava "Redondela". Ao lado estava escrito "Nossa Senhora de Villar ajuda-te".
Mais tarde entendi o significado daquilo...

Uma descida íngreme, com muitas curvas, e debaixo de chuva torrencial.
Tal como no ano passado nos Pirinéus, os meus joelhos começaram a dar de si, e com muita força. Fazer aquela descida foi muito doloroso, e agradeci ter trazido os bastões. Andava mesmo muito devagar.
No pé esquerdo, a desconfiança quase certa de que uma bolha estava a dar o ar de sua graça**.
Descendo, sempre a descer, fui avançando.
Quando por fim terminou a descida (pareceram-me horas), senti-me de novo perdida. Havia muito tempo que não avistava qualquer sinalização. Tive medo de ter passado por alguma e não a ter visto por causa da chuva. Ponderei por duas vezes voltar para trás. Lembrava-me do relato do Rui sobre peregrinos que se perdiam e tinha de voltar a fazer vários km. Por momentos demasiado longos, senti-me sem norte.
Resolvi seguir em frente, e foi o melhor que fiz!

Entrei em Redondela às 15h00.
Tinha feito os 32km que me tinha proposto para aquele primeiro dia!!! Estava feliz por chegar ao fim do meu primeiro dia no Caminho. Estava feliz por ter feito tantos km. Estava feliz por tudo o que tinha visto, tudo o que tinha descoberto, todas as pessoas que tinha conhecido e com quem tinha falado.
De uma forma incontrolável, comecei a chorar de alegria (estava a tornar-se um hábito). Acalmei-me e fui à procura do albergue.

Quando lá cheguei estava encharcada, por fora e por dentro do impermeável (chovia, mas a temperatura era amena). Fiz check-in (a alberguista teve de me ajudar a secar o telefone, que ia na bolsa do impermeável e estava ensopado), fui instalar-me e tomei um duche.

O albergue de Redondela é bonito, mas as camaratas são super apertadas. Escolhi uma cama numa ponta, para ter algum espaço de manobra.
Confirmei a bolha na planta do pé, e socorri-me da velha técnica da agulha e linha. Uma massagem e um descanso merecido, enquanto escrevia.

Começavam a chegar peregrinos de todos os lados.
Meti conversa com uns portugueses - um casal de aveiro e três polícias de Lisboa.
Já perto das 18h00, quando saí para ir ao supermercado, vejo os portugueses que tinham saído comigo de Tui. Chegaram bem mais tarde, mas lá vinham eles!

Entretanto, uma das portuguesas de meia-idade, ao ver que eu estava na cama da ponta, perguntou-me se não me importava que viesse para a cama junto à minha***. Concordei.
Ao vaguear por Redondela, tive oportunidade de ver uma festa de jovens, com música, dança, artesanato e muita cerveja. Avistei os portugueses, que estavam com um grupo e convidaram-me para jantar.
Era um grupo altamente sui generis e muitíssimo heterogéneo em todos os sentidos: 2 portugueses, 3 alemães, 2 italianos (os que tinha encontrado durante a manhã); idades entre os 19 e os 58 anos; profissões o mais diversas possível.


Foi divertido pela companhia, mas a comida não foi nada de jeito e o vinho era pavoroso.
De regresso ao albergue, ficámos um bom pedaço à conversa e a beber vinho junto à porta, até que a hospitaleira nos veio avisar que teríamos de entrar. Mas deixou-nos ficar na sala de estudo, onde ainda estivémos a ouvir música durante um bom bocado. O Massimo tinha trazido do Porto uma garrafa de Vinho do Porto (????), que abriu.
Antes de me de me deitar, um dos portugueses ainda me "ofereceu" uma massagem nos joelhos, que me soube muito bem e me ajudou a relaxar.

Deitei-me às 00h30, mas custou-me imenso a adormecer. A senhora ao meu lado ressonava brutalmente, e outros tantos pela camarata faziam o mesmo. Por outro lado, eu estava cansada mas excitada com as aventuras e descobertas do dia, e ansiosa pelas que viriam no dia seguinte.
O grupo com que jantei tinha combinado caminhar em conjunto na manhã seguinte, e convidaram-me para ir com eles. Hesitei, mas disse que em princípio iria.
Pouco dormi.









*O ritmo que tinham permitia-lhes fazer mais km, embora em mais tempo. O "espanto" deveu-se ao facto de, ao contrário do John, estes peregrinos não estarem habituados a caminhar nem a fazer exercício
** para o que me havia de dar depois de velha... eu que nunca fiz bolhas 
*** Apesar de os beliches serem individuais, como o espaço era pouco os mesmos estavam juntos 2 a 2

5 comentários:

  1. isto de ser por episódios é uma treta :p quero mais!

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  2. É por episódios porque tenho muitas coisas escritas, e não tenho tempo para tudo.
    E porque tenho de filtrar alguns pensamentos mais "pessoais" que não são para vir para aqui...
    Mas tá quase o resto!

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  3. Mais, mais, mais! :)

    Ainda pensei em fazer o relato do meu Caminho Português, e agora que leio o teu, fico com pena de não o ter feito. Ficam só as fotos. As saudades que já tenho do convívio nos albergues. De descobrir sítios novos. De falar com as pessoas do Caminho...

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  4. Não, não vou. Desta vez senti que não fazia sentido escrever mais no diário a partir do 3º dia, então parei por aí. Tinha que puxar um pouco pela memória...

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