Apesar de ter, e muito bem, optado por o fazer na companhia dos portugueses que me tinham convidado, foi de todos o dia mais difícil a nível físico, espiritual e emocional. Curiosamente,
e "apesar" de ir acompanhada por quatro companheiros de viagem, foi
aquele onde consegui uma maior interioridade pessoal. (já explico)
Foi também, talvez, o mais divertido.
(grande baralhação que aqui vai... foi um dia de sentimentos contraditórios, pronto)
Por todos estes motivos, vai ser escrito em duas partes. pelo menos
Confesso
que quando comecei a caminhar, num trajeto lindo mas a descer, e vi o
primeiro marco - que assinalava 32km, pensei que iria deixá-los em Teo,
como inicialmente tinha previsto.
Não foi um dia fácil.
Tínhamos 32km pela frente, queríamos chegar "cedo" a Santiago, e eu estava com fortes limitações para a saída de Valga e para a chegada a Santiago (que pelos mapas iriam ser descidas acentuadas).
Desta forma, tínhamos combinado acordar às 5h, tomar o pequeno almoço no café onde no dia anterior tínhamos comprado as coisas para o jantar.
Assim fizemos.
Connosco partiu o Luís.
Eu tinha-me cruzado com o Luís no dia anterior, quando este caminhava com outro senhor espanhol, mais velho. Pensei que eles iam juntos, mas não.
Na altura, o tal senhor tinha caminhado comigo durante uma meia hora, e nesse tempo foi-me falando do seu companheiro. Parece que gostava de fazer o Caminho a correr (???!?), mas parava muitas vezes, em locais de especial beleza, para admirar o verde e a natureza. Chegava a ficar ali parado em contemplação durante mais de meia hora... Por outro lado, de cada vez que via árvores grandes (e portanto antigas), parava também e abraçava-as durante um bom pedaço de tempo. Na altura, não liguei muito ao que este peregrino me disse. (já tinha visto tanta coisa estranha...) Mas neste dia percebi e pude constatar o que ele me tinha dito.
Não sei bem como descrever o Luís.
Ele era um desportista (o corpo visivelmente bem moldado por muitas horas de ginásio - e corrida, segundo ele próprio), tatuagens de cariz religioso nos braços, e tinha umas teorias... interessantes acerca de alimentação e forma de andar.
Se por um lado não comia porco, não bebia álcool e não tomava pequeno almoço porque "comer logo de manhã dá cansaço e faz mal ao organismo", enquanto ainda no albergue arranjávamos as coisas para sairmos, ele tomou uns comprimidos de coisas que o "ajudavam a ter energia".
Não disse o que eram...
Não disse o que eram...
Saiu connosco do albergue e esteve a olhar para nós enquanto comíamos, tecendo considerações sobre alimentação.
...
A saída de Valga é magnífica, e fazê-lo ao amanhecer tornou o percurso ainda mais belo.
Íamos animados (com aquele grupo era impossível não estar), e em busca do "marco" do D. - Ele queria tirar uma foto junto ao marco com tantos km como a sua idade, e sendo o mais novo do grupo, isso estava guardado para este último dia.
Eu e 3 dos meus companheiros deste último dia - o Luis, o Pina, e o Duarte (o Jorge tirou a foto)
Enquanto as minhas articulações não aqueceram, foi doloroso. Optei por fixar o meu pensamento em coisas diferentes, "fora dali".
(Os acontecimentos deste dia estão um pouco confusos em termos de organização espacio-temporal, por isso não se admire quem me lê se eu "saltitar" nas horas)
Como não me canso de afirmar, estes três companheiros foram fantásticos. O ritmo deles era bem mais acelerado que o meu (cada vez mais lento), mas de uma forma que não percebi bem se tinha sido combinada entre eles ou não, havia sempre um que caminhava mais perto de mim - ali pertinho (poucos metros de distância, às vezes lado a lado), que me ia perguntando como estava, que simplesmente olhava para trás para ver se eu estava bem e/ou a andar. Pareciam saber sempre o momento exato para uma palavra de alento, para uma piada de descompressão, para um silêncio cúmplice.
Ao passar Padrón, o Pina quis ir comprar cerejas, e o Luís quis ir comprar pão para dar aos patos que estavam no rio e comer ao pequeno almoço*.
Parámos no jardim junto ao rio e esperámos.
Voltou o Pina, comemos as cerejas. Brincámos com os patos. Dissemos piadas. Esperámos.
Do Luís, nada.
Do Luís, nada.
Devemos ter estado ali mais de meia hora. Até que um foi à procura dele. Tinha comprado o pão e estava numa esplanada a conversar com outros peregrinos que estavam a sair do albergue de Padrón. E nem o escondeu...
Isto pode parecer estranho, mas vindo da simplicidade e sinceridade que o caracterizava, só nos deu para rir.
Seguimos.
Pouco depois, o Luís informou-nos que iria ficar numa zona verde, a comer e a contemplar a paisagem. Precisava, segundo ele, de alimentar o corpo com o pão que tinha comprado em Padrón, e alimentar o espírito com um abraço prolongado a uma árvore (segundo ele) milenar que tinha descoberto. Disse-nos que iria ficar por ali cerca de meia hora ou mais, mas que depois disso iria a correr ter connosco.
Deixámo-lo sorridente, concentrado e abraçado à árvore, e seguimos o nosso caminho.
Nunca mais o vimos.
Esta primeira parte do percurso era linda, ainda com muito campo, atravessando ocasionalmente pequenas povoações.
Esta primeira parte do percurso era linda, ainda com muito campo, atravessando ocasionalmente pequenas povoações.
O grupo tinha por hábito fazer a meio do percurso do dia uma paragem de 30-40 minutos para descansar, comer qualquer coisa e trocar de meias. Calhou que neste quarto dia de jornada essa metade do caminho fosse numa terra muito movimentada. Escolhemos o adro de uma igreja, junto ao pelourinho. Mas pouco depois de termos tirado as mochilas das costas, começou a chover bastante, e tivemos de nos mudar para uma fonte que havia junto à estrada. Ali descansámos, comemos qualquer coisa** e reabastecemos os cantis com água fresca.
Fizemo-nos de novo ao caminho, debaixo de chuva, mas parámos poucos km à frente. Eles ainda me perguntaram se eu queria continuar (já que eu própria tinha passado os 3 dias antes a dizer que preferia andar devagar do que fazer paragens e retomar), ou almoçar com eles. Fiquei, e soube bem aquela paragem, o hamburguer, o convívio com os turigrinos americanos que encontrámos ali.
Ao passar Teo, olhei o marco que apontava 13km.
Doía-me tudo. Estar de pé, com as pernas esticadas, doía. Dobrar as pernas doía. A solução nas paragens era adotar uma posição vertical, com ligeira flexão dos joelhos.
Considerei que ficar ali sozinha e no dia seguinte enfrentar aqueles km todos sem companhia ia ser penoso. Nem lhes referi estes meus pensamentos. Meti pelo caminho de terra batida que entrava num bosque e segui viagem.
A partir daqui começámos a ver muita malta desta.
Era observar os autocarros a parar, e eles - os turigrinos, a saírem de lá frescos que nem alfaces, de mochilas levezinhas às costas e a fazerem-se à estrada. Obviamente nada tinha a ver com isto, mas confesso que no meio do meu cansaço e das minhas dores todas, aquilo me fez muita confusão.
Senti pela primeira vez que estava a atingir o meu limite numa subida junto a uma estrada movimentada, que eu na altura julgava ser já próxima de Santiago.
Se calhar até era, mas o facto é que por esta altura já tinha deixado de ter noção de tempo e de distância. E nem queria olhar para os marcos. Obrigava simplesmente o meu corpo a ignorar a dor e a obedecer à minha mente: um pé à frente do outro, e outro, e outro, e outro.
Chovia, a subida era mesmo grande e comprida, inclinada e numa estrada cheia de carros.
Apenas eu, a olhar para o chão (não queria ver o fim interminável daquilo), e os gritos de incentivo dos meus novos amigos. Chamavam por mim, batiam palmas, brincavam...
Ao chegar ao topo, pensei que estava já próximo de Santiago. Enganei-me redondamente.
Pelos dados do gps, faltariam ainda 2 míseros km antes da derradeira descida para o nosso destino final. Mas ao menos esses eram a direito.
Atravessámos a localidade, e considerámos parar para uma cerveja, antes da descida. Estava tudo fechado, e por isso aproximámo-nos do bosque verdejante que nos separava de Santiago de Compostela.
Eu, que até aí tinha sempre preferido seguir caminho em vez de parar, implorei por um breve descanso. Encontrámos um recanto junto a uma casa e descansámos, comendo os últimos amendoins que eu ainda tinha comigo.
Estávamos a uns escassos 200m do início da descida...
Se calhar até era, mas o facto é que por esta altura já tinha deixado de ter noção de tempo e de distância. E nem queria olhar para os marcos. Obrigava simplesmente o meu corpo a ignorar a dor e a obedecer à minha mente: um pé à frente do outro, e outro, e outro, e outro.
Chovia, a subida era mesmo grande e comprida, inclinada e numa estrada cheia de carros.
Apenas eu, a olhar para o chão (não queria ver o fim interminável daquilo), e os gritos de incentivo dos meus novos amigos. Chamavam por mim, batiam palmas, brincavam...
Ao chegar ao topo, pensei que estava já próximo de Santiago. Enganei-me redondamente.
Pelos dados do gps, faltariam ainda 2 míseros km antes da derradeira descida para o nosso destino final. Mas ao menos esses eram a direito.
Atravessámos a localidade, e considerámos parar para uma cerveja, antes da descida. Estava tudo fechado, e por isso aproximámo-nos do bosque verdejante que nos separava de Santiago de Compostela.
Eu, que até aí tinha sempre preferido seguir caminho em vez de parar, implorei por um breve descanso. Encontrámos um recanto junto a uma casa e descansámos, comendo os últimos amendoins que eu ainda tinha comigo.
Estávamos a uns escassos 200m do início da descida...
(continua)
*eram umas 8h30/9h - mais de 3 horas depois de termos começado a andar portanto, mas ele ainda não tinha comido nada a não ser os comprimidos que tomou logo assim que acordou
** pouca coisa mesmo, porque não tínhamos podido comprar comida em Valga

esse Luís, parece-me pessoa sábia. com comprimidos ou sem eles.
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