Comecei o dia cedo.
Tínhamos
combinado (o grupo de ontem) que o primeiro a acordar chamaria os
outros. No entanto, acordei pelas 6h, perguntei à Anya se queria acordar
e ela disse que não. Segui.
Saí do albergue às 7h00 de novo.
Encontrei-me cá em baixo com os três portugueses polícias, mas eles iam em passo acelerado.
De
novo, sair de Redondela foi algo confuso. E aquela hora, como se pode
calcular, poucos ou nenhuns moradores se encontravam pela rua (a um
sábado, ainda por cima). Vi um à janela e confirmei com ele o trajeto
dentro da localidade. Estava na direção certa.
Já nos arredores, começo a ouvir música. Cada vez mais alto a cada metro que andava.
Eis
que chego a uma zona já de campo, e vejo um grupo de 3 ou 4 jovens que
vinham vestidos para a festa (ou melhor dizendo, aquela hora vinham
vestidos "da" festa). À minha esquerda, depois de um campo de futebol,
via-se ao longe um terreiro e uma tenda grande, onde muita gente ainda
dançava ao som de música de discoteca. E um grupo de 4 jovens cruza o
meu caminho, os rostos denunciando o cansaço de quem não dormira, as
roupas da festa.
À saída de Redondela, numa ponte sobre o caminho de ferro
A saída de Redondela é muito bonita, e cruza diversas vezes a linha do caminho de ferro.
Não fosse o facto de os primeiros 5km terem um desnível a subir de... 224m (!!?!!!) e seria quase perfeito!
É que se há coisa que eu aprendi relembrei neste meu Caminho é que todas as subidas têm 2 grandes defeitos:
1. São... a subir!
2. Depois de uma subida... há sempre uma dolorosa descida!
Ao passar por uma localidade chamada Arcade (perto das 8h), vejo
um grupo de alemãs à porta de um hotel, que me olhavam com curiosidade.
Tinham às costas pequenas mochilas de "passeio", e não lhes liguei
muito. Pensei que me olhassem por causa de estar a coxear, ou que pela
nacionalidade não me reconhecessem como peregrina.
Pontesampaio - onde se deu uma importante batalha na guerra pela independência espanhola
Passei este dia praticamente sozinha, e quase não me cruzei com
ninguém. Até que o Mauro me "apanhou". Vinha de novo no seu passo
acelerado, mas caminhou um pouco comigo.
Jovem de 30 anos, vem de
Bergamo. Veio fazer o Caminho porque, à semelhança do que acontecia
comigo, necessitava de um tempo para si próprio, um tempo longe das
rotinas diárias, das pessoas. Estar com ele mesmo e tempo para pensar em
si e no seu futuro. Comentou aquilo que eu própria pensava: o grupo dos
dias anteriores era simpático, alegre e fazia boa companhia. No
entanto, para Caminhar durante o dia, preferia fazê-lo sozinho, entregue
apenas a si e aos seus pensamentos. Seguiu em frente, de passo ligeiro.
Eis que literalmente no meio do nada, encontro um quiosque.
O Mauro já se encontrava sentado, e eu parei também. O dia estava a aquecer e aproveitei para me refrescar, bem como colocar a joelheira elástica. Os joelhos continuavam a doer, e por esta altura já não conseguia distinguir qual era o pior.
Avisto um grupo que caminhava ligeiro, e reconheço as alemãs dessa manhã. Percebi porque me olharam com tanta curiosidade...
Resolvemos retomar a marcha, e de novo o Mauro seguiu à minha frente.
O percurso deste dia foi muito bonito. Muito campo, o rio, passei junto a locais fantásticos.
No
entanto, foi igualmente muito duro, porque teve muitos declives, e os
meus joelhos não estavam em condições. Aliás, descer é mesmo
insuportável e várias vezes houve em que me vieram as lágrimas aos olhos
de tanta dor. Mas... foi também 10km mais curto!
E por volta do meio dia, quando entrava em Pontevedra, oiço
várias vozes a chamar por mim, em grande festa. Eram os 3 portugueses, o
Mauro, outro peregrino que vim a identificar como sendo o esloveno, e a
francesa. Estavam todos na esplanada de um café, pois o albergue só
abria às 13h. Juntei-me a eles e ali aguardámos a abertura.
O albergue de Pontevedra foi até hoje dos melhores, em termos de
condições. Dispõe de cozinha, sala de estar, sala de comer, um grande
relvado. Tinha ainda máquina de lavar e de secar roupa (em que me juntei
com os portugueses e lavei tudo o que tinha).
Enquanto esperava pela roupa, fui sair com a Eva e os italianos (que entretanto tinham chegado).
Percorremos
uma boa parte de Pontevedra em busca de um supermercado, mas era
domingo e por isso estava tudo fechado. Acabámos nas tapas num centro
comercial, onde também consegui wifi.
O Massimo em grande plano (depois das cervejas)
O
jantar foi feito com o grupo todo (domingo, tudo fechado. Acabámos na
estação rodoviária. Ainda cheia por causa das tapas, comi apenas uma
sopa sem sabor - mas quentinha). Entretanto a Laura (a italiana mais
novinha) estava também aflita dos joelhos, e decidiu que no dia seguinte
abandonaria o Caminho, regressando a Itália.
O
Rui deu-me um gel que aliviava as dores, e emprestou-me também uma
joelheira para o outro joelho. Bonito! Pareço agora um espantalho cheio
de remendos!
Calhou-me de novo uma cama de cima
do beliche. Subir e descer era terrível, e optei por pendurar as coisas
de que necessitava na armação da cama.
De novo ao final do dia, chegam os emigrantes portugueses. E a minha saga começa. Eis que a
senhora que ficou ao meu lado na noite anterior (a mais velha) e que
tinha ficado impressionada por eu estar sozinha, se armou em minha
protetora e, segundo ela, tinha ficado mesmo muito apoquentada na noite
anterior por ver que às 22h eu não estava na cama. Ela pensou que eu me
tinha atrasado e tinha ficado do lado de fora do albergue. Havia de
ouvir esta história várias vezes durante a noite*...
Ao contrário do que eu esperava
(pelo que várias pessoas me tinham dito antes de eu partir), este
albergue esgotou. Chegaram a negar a entrada a peregrinos que vinham de
bicicleta.
Isto fez com que o grupo
que entretanto se formava resolvesse acordar às 5h e sair cedo, para
chegar cedo a Caldas de Reis (pelos vistos um albergue com menor
capacidade) e arranjar lugar sem problemas.
Entretanto, já eu tinha começado a pensar em andar mais um pouco e seguir até Valga (8km depois de Caldas de Reis). Isto iria permitir-me "fugir" aos ditos possíveis problemas
de espaço, bem como avançar no dia seguinte até Teo, reservando o
último dia para os derradeiros 12km até Santiago, chegando lá mais cedo e
ficando desta forma com mais umas horas para percorrer a cidade.
Resolvi ver como corria o dia seguinte, e tomar a decisão final consoante o meu estado físico. (já que o psicológico estava em alta)
* basicamente... a cada vez que passava por mim a senhora falava no mesmo. E isso irritava-me de sobremaneira...
Resolvi ver como corria o dia seguinte, e tomar a decisão final consoante o meu estado físico. (já que o psicológico estava em alta)
* basicamente... a cada vez que passava por mim a senhora falava no mesmo. E isso irritava-me de sobremaneira...


o que eu pensei nos teus joelhos...
ResponderEliminarEu tive uma sorte daquelas mesmo grandes e uma surpresa enorme quando chego a Pontevedra e aterro mesmo no meio da Feira Medieval anual. Toda, mas mesmo TODA a população de Pontevedra estava vestida à época, e o centro histórico da cidade estava todo cheio de palha no chão, com animações em cada esquina, tascas e mesas e gente por todo o lado :) Foi espectacular! O pessoal do Norte não ficou muito entusiasmado porque eles também têm umas tantas assim parecidas. Mas para um Lisboeta, fiquei fascinado. Nem a de Óbidos se assemelha remotamente àquilo. Uma das pulseiras de couro que ainda hoje uso (até cair) foi comprada aí.
ResponderEliminarTambém cheguei a usar uma joelheira. Foi a primeira vez que usei uma. Mas faz toda a diferença.
A única coisa que não gostei do Albergue foi de estar tão afastado do centro histórico. Isso não é nada comum nos albergues do Caminho, e andar 40 minutos até ao centro, desmotiva muitos dos peregrinos que andaram com algumas dificuldades o dia todo. Mas as condições eram muito boas.
Vá, agora o relato do dia seguinte! Já está?
... já está?
Já está?
;)
Pois Rui, lembro-me de me teres contado isso antes de partir.
ResponderEliminarFoi com muita pena que estive em Pontevedra a um domingo. Estava mesmo tudo fechado... visitei a cidade (?cidade?), mas não é a mesma coisa.
De facto, também a questão de o albergue estar ali numa pontinha é aborrecido. O que fiz nos outros locais era chegar, banho, descansar um pouco, ir visitar a localidade e fazer compras, regressar para comer qualquer coisa e voltar a sair.
Ali não foi possível, porque as distâncias eram muito grandes - tanto que acabámos a comer na rodoviária... (falta de opções também, mas poderia ser que lá para o centro houvesse mais alguma "bodega" aberta)